O que a Corrente Marxista Internacional realmente defende


Editorial board of Marxist.com    29/11/2006

 

A web In Defence of Marxism e a organização que a publica, a Tendência Marxista Internacional, pretendem proporcionar uma análise da sociedade capitalista e da luta de classes que dela decorre. Desenvolvemos uma perspectiva de para onde nós pensamos que a sociedade está se movendo e, finalmente, oferecemos um programa para os trabalhadores do mundo de combate a este sistema e de, finalmente, alcançar uma sociedade socialista, uma sociedade em que a exploração e a injustiça tornar-se-ão coisas do passado bárbaro e capitalista. Em todos os países onde estamos presentes intervimos ativamente dentro do movimento dos trabalhadores para construir uma verdadeira oposição marxista de esquerda, cujo objetivo final é o de oferecer à classe trabalhadora uma liderança revolucionária.

Internacionalmente, existem muitas outras tendências tentando oferecer suas alternativas. Temos nossas diferenças com muitas destas como se evidencia na nossa aproximação ao movimento dos trabalhadores, nos nossos métodos de trabalho e em nossas idéias fundamentais, que todos podem conhecer percorrendo a enorme variedade de artigos em nossa página web. Nossos leitores podem julgar por eles mesmos lendo o material sobre os assuntos fundamentais em jogo. Contudo, ocasionalmente, encontramo-nos não com "polêmicas", nem com desacordos genuínos com nossas idéias e métodos, mas com uma absoluta falsificação de nossas posições. Acreditamos que, se os ativistas do movimento querem se beneficiar de qualquer troca de idéias, então pelo menos os envolvidos deveriam citar honestamente o que os seus oponentes realmente pensam e escrevem.

É a coisa mais fácil do mundo levantar um espantalho para logo derrubá-lo. Falsificar a posição de um oponente visando ridicularizá-lo não serve a nenhum propósito sério. Não ajudará aos trabalhadores e à juventude a entender o que realmente está em jogo. Pode dar ao escritor um sentimento de auto-satisfação, mas certamente não aumenta sua reputação dentro do amplo movimento dos trabalhadores. Deveríamos ter um debate honesto sobre o que defendemos e responder a qualquer crítica verdadeira de nossas reais posições.

Nunca teria ocorrido a Engels falsificar os argumentos de Dühring para marcar pontos típicos de um debate barato. Em todas as polêmicas de Marx, Engels, Lênin e Trotsky, vemos a mais escrupulosa atitude em relação às citações de seus oponentes. Por isso, eles sempre citavam detalhadamente e nunca tomavam frases isoladas, fora do contexto, com o objetivo de distorcer as posições que estavam analisando. A razão disto é muito simples. Para uma tendência marxista genuína, o propósito de uma polêmica não é o de marcar pontos nem insultar o outro lado, mas o de ELEVAR O NÍVEL TEÓRICO DOS QUADROS.

 

Um método desonesto

  No passado tivemos ocasionalmente de lidar com críticas desonestas, mas geralmente preferimos não entrar em polêmicas com as seitas pseudo-trotsquistas que se disfarçam como a "Quarta Internacional". Estas organizações que proliferam à margem do movimento dos trabalhadores estão atacando constantemente a todos, numa atmosfera de denúncias histéricas. Essa variedade de partidarismo estéril nada tem a ver com as reais idéias e os métodos de Leão Trotsky e tende a afastar os trabalhadores e a distanciar-se do trotsquismo em geral.

Normalmente ignoramos os ataques das seitas, que realmente representam unicamente a si mesmas. Há momentos, contudo, em que somos obrigados a esclarecer as coisas. Na era da internet é possível, mesmo para o mais insignificante grupo, colocar em circulação as mais incríveis falsificações e distorções de nossas posições. Em conseqüência, somos compelidos a perder tempo para explicar a nossa posição. Infelizmente, neste artigo temos de tratar de um caso de falsificação.

Portanto, pedimos aos nossos leitores um pouco de paciência por dedicarmos aqui algum tempo e espaço a responder às calúnias, insinuações e espalhafatosas mentiras sobre a Corrente Marxista Internacional, publicadas pelo jornal francês, La Verité (a revista teórica de um grupo que se reclama como a Quarta Internacional), em sua edição 48 (nova série), de fevereiro de 2006. O grupo por trás dessa publicação é mais conhecido como "lambertistas", um dos muitos grupos dissidentes que emergiram dos escombros da velha Quarta Internacional ao fim da Segunda Guerra Mundial.

Métodos desonestos de polemizar não educam os quadros; pelo contrário, os deseducam. Não era este o método do Partido Bolchevique de Lênin e Trotsky, mas a escandalosa caricatura de Zinoviev e Stalin que destruiu o Partido Bolchevique e a Internacional Comunista. E isso destruirá também as chamadas tendências trotskistas que há muito tempo abandonaram as idéias, os métodos e as tradições de Trotsky. O último racha da organização dos lambertistas é mais uma prova dessa afirmação.

A crise dos lambertistas é apenas o último episódio da ignominiosa desintegração das seitas que emergiram da degeneração da Quarta Internacional depois da morte de Trotsky. De uma forma ou de outra, todas essas organizações que ruidosamente se proclamam como a Quarta Internacional estão em crise, dividindo-se e desintegrando-se. Elas são absolutamente incapazes de proporcionar uma explicação teórica para os mais importantes fenômenos do mundo atual, desde o colapso do estalinismo à Revolução Venezuelana. Acima de tudo, elas são organicamente incapazes de orientar o movimento real das massas. Elas estão condenadas a ser uma nota de pé de página irrelevante na história.

A Corrente Marxista Internacional (CMI) é a única tendência trotskista no mundo que tem provado sua viabilidade, não somente na teoria, onde nossa atuação é inigualável, mas também na prática, devido ao nosso sério e sistemático trabalho de propaganda das genuínas idéias do marxismo-leninismo (trotskismo) nas organizações de massa da classe trabalhadora. A CMI foi a única tendência a explicar o real significado da Revolução Venezuelana e a intervir ativamente nela. Este é um fato que ninguém pode negar. O que irrita o companheiro Lambert e seus colegas é precisamente este fato: que fomos capazes de encontrar um caminho às massas, onde eles (e todas as outras 57 variedades de "trotskismo") fracassaram.

São os nossos êxitos que estimularam os furiosos ataques das seitas. Os lambertistas acabam de perder a grande maioria de sua seção brasileira, que era a maior e mais importante seção fora da França. Parte das razões para a separação foi indubitavelmente a total incapacidade dos dirigentes lambertistas de entender a natureza da revolução que está se desenvolvendo na América Latina. Eles adotaram os mesmos esquemas mecanicistas e formalistas com relação à Revolução Venezuelana, o que tem caracterizado sua visão de conjunto por décadas. Em conseqüência, são completamente incapazes de intervir na Revolução.

Tal fato tem suscitado perguntas na mente de seus militantes, especialmente na América Latina. Os companheiros de sua seção brasileira fizeram uma séria tentativa de estabelecer contatos com as tendências revolucionárias na Venezuela, o que os levou a entrar em contato com os camaradas da CMR, que estão desempenhando um papel dirigente no movimento de fábricas ocupadas na Venezuela. Foi esta, aparentemente, a razão deles terem sido expulsos.

Tendo visto como distorciam, tergiversavam e falsificavam completamente as posições políticas da CMI, podemos unicamente presumir que o grupo O Trabalho também foi submetido à mesma escola de falsificação e, por isso, expressamos nossas simpatias por ele. E já que a motivação para os ataques contra nossa tendência resultou do conflito com a maioria da seção brasileira, começaremos por esclarecer a questão de nossas relações com estes.

 

Nossas relações com o grupo O Trabalho

  Em sua edição de maio (números 49-50), os lambertistas dedicaram cerca de metade do jornal aos recentes acontecimentos desencadeados dentro da seção brasileira de seu grupo internacional. Ali eles repetem muitas das calúnias levantadas na edição de fevereiro. Não desejamos entrar aqui no conflito que irrompeu no Brasil. Mas uma das principais acusações contra os dirigentes de sua seção brasileira, conhecida como o grupo O Trabalho, era que eles estavam colaborando secretamente com a CMI.

Vemos aqui um excelente exemplo do tipo de histeria e paranóia que constitui a atmosfera corriqueira no interior das seitas "trotskistas" em todos os países. Em vez de lidar seriamente com as diferenças políticas, que inevitavelmente surgem de vez em quando, os dirigentes detectam imediatamente algum tipo de conspiração contra eles. Reagem com acusações estridentes, ataques pessoais e medidas burocráticas. Esta é uma receita acabada para crises internas e divisões. Os dirigentes não se incomodam com os danos causados à organização, desde que sua autoridade pessoal seja preservada.

Na verdade, a acusação de colaboração fracionária entre O Trabalho e a CMI é completamente falsa. Nosso contato com os companheiros brasileiros de O Trabalho veio como resultado do trabalho de nossos companheiros venezuelanos da CMR. Como já explicamos, temos desempenhado um papel de liderança no movimento de fábricas ocupadas na Venezuela e, por essa razão, naturalmente atraímos a atenção de Serge Goulart do grupo O Trabalho, que é uma figura dirigente dentro do movimento de fábricas ocupadas do Brasil.

O companheiro Goulart e os outros companheiros envolvidos nas fábricas ocupadas no Brasil encontram-se sob ataque do Estado. Eles lançaram um apelo público de solidariedade aos trabalhadores de todo o mundo e, particularmente, pediram-nos ajuda em sua campanha. Respondemos a este apelo como respondemos a qualquer apelo de trabalhadores agredidos. Como resultado dos esforços de marxist.com, muitos de nossos companheiros trabalhadores com posições no movimento dos trabalhadores de seus respectivos países assumiram a responsabilidade e enviaram cartas de apoio. Foi assim que começou a conexão. Não sabemos até onde a Internacional Lambertista apoiou a campanha de seus camaradas brasileiros. Mas a nossa impressão é que não foram muito longe nesse apoio.

Nesse meio tempo, o conflito entre a direção internacional lambertista e sua seção brasileira chegou a uma cisão. A direção internacional dos lambertistas empreendeu uma campanha furiosa contra a maioria do grupo O Trabalho. Na edição de fevereiro de La Verité foram feitas muitas referências à "tendência Woods-Grant" - isto é, à Corrente Marxista Internacional (CMI) - sob o título "A propósito da política da corrente Grant-Woods", e é, principalmente, deste artigo que nós tratamos aqui.

Como indicação de seus métodos inescrupulosos, estes companheiros começaram o seu ataque à CMI atacando outra tendência que absolutamente nada tem a ver conosco. Eles apontam o dedo ao chamado "Secretariado Unificado da Quarta Internacional" (SUQI), a tendência mandelista. A razão para esta flagrante distorção é clara. Eles desejavam descarregar sobre os ombros da CMI algumas das posições oportunistas adotadas pelo SUQI.

O método de La Verité é o método dos estalinistas que Trotsky descreveu como o amálgama. O que temos aqui é um exemplo de culpa por associação, exceto pelo fato de que essa associação foi estabelecida nos textos dos lambertistas e em nenhuma outra parte. Lamentamos informar aos nossos críticos lambertistas que não temos nada a ver com aquela organização e não podemos ser responsabilizados por nada do que eles façam ou digam. Esta "confusão" de La Verité não é acidental (embora seja uma verdade que eles se confundem em quase tudo).

No Brasil, os mandelistas tinham um ministro no governo de Lula apoiando suas política reacionárias. Isto levou a uma cisão e agora existem dois grupos apoiando o "Secretariado Unificado". Isto é absolutamente característico do oportunismo orgânico dos mandelistas em geral. Mas isto absolutamente nada tem a ver com a nossa tendência, que sempre se opôs às idéias revisionistas de Mandel e companhia, e, em conseqüência, rompeu decisivamente com o SUQI em 1965 e que não mantém contato com esta organização desde então.

O problema aqui é que os leitores de La Verité não conhecem nada sobre a CMI (a "Internacional Woods-Grant") porque não conhecem a verdadeira história da Quarta Internacional. La Verité quer mantê-los na ignorância para espalhar deliberadamente mentiras e confusão. Eles deliberadamente misturam tudo: Pablo, Mandel, Woods-Grant. Nossa principal tarefa é, por essa razão, lançar um pouco de luz sobre a história do movimento, na esperança que La Verité faça afinal justiça ao seu nome.

 

Em que momento degenerou a Quarta Internacional?

  As causas da degeneração política e organizativa da Quarta Internacional podem ser remontadas à morte de Trotsky. Todos os dirigentes da Quarta sem exceção - Pablo, Frank, Cannon, Mandel, Healy e Lambert (na medida em que os dois últimos podem ser considerados dirigentes naquele momento) são coletivamente responsáveis por isto. Mas Lambert tem escondido isto cuidadosamente dos membros de sua organização, por décadas. Eles são mantidos na ignorância da verdadeira história da Internacional e, em seu lugar, são alimentados com o conto de fadas de que a Quarta Internacional estava bem até 1953, quando misteriosamente degenerou. Chegou o momento de por fim a este conto de fadas e de dizer a verdade (ver apêndice no final deste artigo, As origens do colapso da Quarta Internacional).

Mais tarde, trataremos da longa lista de distorções de nossas atuais posições. Começaremos esclarecendo os fatos históricos. O autor não se preocupa de colocar com seriedade a história da Quarta Internacional. Ele não ousa entrar em detalhes porque o registro histórico poderia ser intensamente embaraçoso para Lambert. Em vez de tratar adequadamente a questão, modestamente limitou-se a notas de rodapé. Nestas notas de rodapé, a "tendência fundada por Ted Grant" é apresentada como "direitista" dentro da Quarta Internacional no final da Segunda Guerra Mundial.

Como se justifica esta acusação? Onde se encontram as evidências documentais, as citações, as resoluções? Nem mesmo um fragmento de evidência é apresentado para esta afirmação escandalosa. A razão é que isto não tem, de fato, o menor fundamento. Este não é o lugar para publicar uma história documentada da Quarta Internacional, mas tentaremos nos próximos meses tratar desta questão e republicar os escritos do camarada Ted Grant, que demolirão completamente o mito de que a seção britânica (o PCR) representava um "desvio de direita". Pelo contrário, o registro histórico mostra com clareza que o PCR sozinho foi responsável pela defesa das idéias, métodos e política de Trotsky, enquanto a direção oficial da Quarta se equivocou em todos os principais assuntos. Os erros de Pablo, Cannon, Mandel, Frank e companhia desmoralizaram os quadros da Internacional e causaram crises internas e cisões que a destruíram.

A linha totalmente incorreta dos dirigentes da Internacional é sublinhada por Ted Grant em Programa da Internacional (Programme of the International, May 1970; este e outros trabalhos desse período podem ser encontrados no Arquivo Ted Grant, http://tedgrant.org/, e http://www.engels.org/ted_grant/index.htm). É claro que qualquer um pode cometer erros. Mas uma direção séria está preparada para ouvir críticas, corrigir erros e aprender deles. O problema surge quando uma direção não está disposta a admitir um erro e continua a repeti-los. Nesse caso, já não estamos lidando com erros, mas com uma tendência.

Uma linha política incorreta deve cedo ou tarde manifestar-se em métodos incorretos de organização e em regime interno pouco saudável. Explicamos muitas vezes à direção da Internacional que a única autoridade que ela pode ter é a autoridade política e moral. A direção deve convencer à militância através da argumentação paciente, não com medidas burocráticas, intimidação e ameaças. Mas uma direção que carece da necessária autoridade política e moral inevitavelmente recorrerá a métodos organizativos na tentativa de calar os críticos.

Quando Lênin e Trotsky colocaram-se à cabeça dos partidos comunistas de massa nos dias iniciais da Internacional Comunista, sempre trataram as diferenças (e havia muitas) de forma paciente. Nunca lhes teria ocorrido tratar os seguidores de Bordiga ou os "esquerdistas" alemães e britânicos, por exemplo, recorrendo a ultimatos e expulsões. Esta é uma receita acabada para a destruição da Internacional. Estes foram os métodos introduzidos na Internacional Comunista por Zinoviev e Stalin. A razão disto é que eles eram incapazes de responder às críticas através de argumentos políticos leais. Eles não tiveram a necessária autoridade política e moral e, por essa razão, tentaram usar os métodos organizativos para resolver problemas políticos.

Este foi o caso dos dirigentes da Quarta depois da morte de Trotsky. Incapazes de responder aos argumentos dos companheiros britânicos no período 1944-50, recorreram às intrigas e manobras organizativas. Quer dizer, adotaram métodos zinovievistas. Nunca puderam ganhar a maioria da seção britânica através de discussões democráticas e, dessa forma, manobraram com uma pequena minoria conduzida por Gerry Healy para dividir a seção e expulsar a maioria. Estes são os mesmos métodos que Lambert e Gluckstein estão usando agora para expulsar a maioria de sua seção brasileira. Quem foi o responsável por estes métodos em primeiro lugar? Foi Pablo, junto com Cannon, Mandel, Frank e todos os demais chamados dirigentes da Internacional. Lambert aprendeu estes métodos deles - e tem provado ser o melhor aluno da escola de Pablo.

Cannon, apesar de seus defeitos, era provavelmente o melhor deles. Pelo menos tinha sido um dirigente operário e desempenhou um papel importante na reunião dos primeiros quadros trotskistas nos dias iniciais da Oposição de Esquerda. Mas Cannon nunca foi um teórico. Ele era um organizador e um agitador. E, embora Trotsky tenha apoiado a posição política da maioria do SWP contra a oposição pequeno burguesa de Schachtman, nunca tolerou os métodos organizativos de Cannon, que necessariamente levaram à cisão. Mesmo antes da guerra, Cannon costumava usar os métodos organizativos zinovievistas contra nossa tendência (ver History of British Trotskyism). Tais métodos destruirão inevitavelmente qualquer organização que os utilize. O destino do SWP americano e de toda a Quarta Internacional representou uma séria advertência a este respeito.

Enquanto Trotsky esteve vivo, era impensável que os métodos zinovievistas fossem tolerados na Internacional. Mas depois de sua morte os arrogantes e pretensiosos dirigentes da Quarta Internacional abandonaram o paciente método de explicação que o "Velho" sempre tinha usado em lugar do "porrete". Lênin uma vez advertiu Bukharin quando este era presidente da Internacional Comunista: "Se queres obediência, terás tolos obedientes". Pablo, Cannon, Mandel e Frank não toleravam críticas (assim como Lambert e Gluckstein hoje). Quando as posições do PCR mostraram-se corretas, uma após outra (China, Leste Europeu, Europa Ocidental, Iugoslávia etc.), reagiram fomentando a divisão na seção britânica, usando seu agente, Gerry Healy. O PCR foi expulso e destruído por esses métodos zinovievistas - métodos que nada tinham em comum com os de Trotsky, mas que foram fielmente copiados por Lambert... de Pablo!

 

Perspectivas incorretas

  Numa nota de rodapé do artigo dos lambertista, lemos o seguinte:

"Depois do colapso do PCR, Grant e seus seguidores desenvolveram certas idéias que compartilhavam com os pablistas, particularmente que as forças produtivas tinham capacidade de se desenvolver, o que os levou a afirmar que a social-democracia tinha um futuro histórico".

Esta pequena nota consegue incluir um erro em cada sentença e, algumas vezes, dois. O PCR não "colapsou". Como explicamos, ele foi deliberadamente destruído pela liderança "pablista" que estava sendo seguida fielmente por gente como Pierre Lambert e Gerry Healy naquele momento. Ao contrário do mito absurdo tão assiduamente difundido por Lambert, o PCR não era "pablista", mas (diferentemente de Lambert) era implacavelmente oposto à linha de Pablo e do resto dos dirigentes da Internacional. O verdadeiro "pablista" britânico era na verdade Gerry Healy. Na Grã Bretanha, Healy era o seguidor mais dedicado de Pablo e de forma submissa seguia todas as instruções de seu mestre de Paris. Numa ocasião inclusive, ele "obteve a linha política" por telegrama (ver History of British Trostskyism, para maiores detalhes).

Na realidade, Pablo e seu títere Healy quase não tinham apoiadores dentro da seção britânica. Todas as intrigas da direção da Internacional não tiveream efeito sobre os militantes, majoritariamente proletários na composição, que permaneceram fiéis às idéias e métodos de Trotsky que eram defendidas por Ted Grant e pela direção do PCR. Foi por isto que a direção da Internacional decidiu destruir a seção britânica. Sua palavra de ordem sempre foi a mesma: "dominar ou arruinar". Esta também é a palavra de ordem de Lambert e Gluckstein. Por isto perderam sua seção brasileira. Por isto nunca construirão uma Internacional revolucionária séria nem em mil anos.

O autor, depois, continua dizendo (sem enrubescer): "Grant e seus seguidores desenvolveram certas idéias que compartilhavam com os pablistas". Isto, realmente, já é alguma coisa! Se o PCR tinha tanto em comum com Pablo e companhia, por que o último nos expulsou sem cerimônias da Internacional? Aqui deixamos de lado o universo racional e entramos no mundo do conto de fadas de Alice no país das maravilhas, onde tudo se encontra ao contrário.

O registro histórico demonstrará que, na verdade, Ted Grant não tinha NADA tinha em comum com as idéias e perspectivas defendidas por Pablo, Mandel, Cannon, Healy e Lambert. Estas perspectivas eram totalmente incorretas e minaram a autoridade da Quarta Internacional, não somente entre os trabalhadores avançados que viam Trotsky com certa simpatia, mas também entre os quadros do próprio movimento trotskista. Temos aqui a causa real da degeneração e do colapso da Quarta Internacional. A cisão de 1953 não foi o ponto de partida da degeneração e sim o seu resultado inevitável. Toda a lamentável história dessa organização a partir daí tem sido de crise e divisões uma atrás da outra.

Quais eram as perspectivas defendidas por Pablo e companhia, com o total apoio de Lambert e Healy, depois da Segunda Guerra Mundial? Eles tinham a idéia de uma recessão imediata, de guerra e revolução. Negaram qualquer possibilidade sequer de uma estabilização temporária do capitalismo na Europa e, em vez disto, defendiam a perspectiva da ditadura e do bonapartismo. Destas perspectivas derivam determinadas táticas. Pablo e os demais colocaram a tática do entrismo profundo ("entrismo sui generis"), isto é, que os trotskistas deviam entrar imediatamente nos partidos social-democratas e estalinistas, que, segundo esta perspectiva, entrariam imediatamente em crise, permitindo aos trotskistas formar da noite para o dia partidos de massas da Quarta Internacional.

A marcha dos acontecimentos revelou que cada uma dessas proposições era falsa. Eles se baseavam na total incompreensão do que Trotsky tinha escrito em 1938, quando disse que, em dez anos, não restaria pedra sobre pedra das velhas internacionais (isto é, a social-democrata e a estalinista), e que a Quarta Internacional se converteria na força decisiva do planeta. Mas, como ocorre com qualquer perspectiva, este prognóstico tinha caráter provisório. As perspectivas marxistas não são projetos a que se devem adaptar os acontecimentos. Essa é uma concepção idealista que nada tem em comum com a dialética materialista. Os marxistas devem estudar cuidadosamente a situação objetiva e atualizar constantemente suas perspectivas. Nossas perspectivas devem ser examinadas à luz da experiência, modificadas ou, se for necessário, rechaçadas sobre a base da experiência.

Trotsky baseou sua perspectiva de 1938 em uma analogia aproximada com a situação que se desenvolveu depois da Primeira Guerra Mundial. Mas a guerra é a mais complicada das equações, como assinalou Napoleão. A Segunda Guerra Mundial se desenvolveu de uma forma que nem sequer um gênio como Trotsky poderia ter previsto. Em particular, as vitórias espetaculares do Exército Vermelho mudaram tudo. A propósito, as perspectivas de Stalin, Hitler, Roosevelt e Churchill também foram destroçadas pelo desenvolvimento dos acontecimentos. Não temos espaço aqui para tratar deste assunto mais detalhadamente. Mas uma análise dos acontecimentos do capitalismo mundial depois de 1945 pode ser encontrada nos escritos de Ted Grant, particularmente em Will There be a Slump?.

Para falar com sinceridade: os então dirigentes da Quarta Internacional não entenderam absolutamente a verdadeira situação objetiva que surgiu da Segunda Guerra Mundial e, devido a sua perspectiva equivocada, destruíram a Quarta Internacional. O estabelecimento de estados operários deformados nos países do Leste Europeu e a vitória do Exército Vermelho chinês colocaram novos problemas teóricos para a Quarta, e mais uma vez a direção revelou sua total incapacidade de compreender o que estava acontecendo. No início, sustentaram que o Leste Europeu e a China eram regimes capitalistas. Depois, sem nenhuma explicação teórica de sua passada posição, eles deram uma virada de cento e oitenta graus. Da noite para o dia, eles declararam que a Iugoslávia de Tito depois da ruptura com Stalin era um estado operário são. Este foi o método de impressionismo político zinovievista, vacilações teóricas constantes, mudança de linha sem nenhuma explicação, passar do A para o Z e dar marcha atrás novamente.

 

A posição de Ted Grant

  A resolução adotada pela Pré-Conferência Internacional da Quarta Internacional de abril de 1946 (The New Imperialist Peace and the Building of the Parties of the Fourth International - Abril de 1946), estava impregnada da perspectiva equivocada de uma iminente crise revolucionária, da impossibilidade de uma recuperação econômica geral do capitalismo e, portanto, isso ilustrava as excelentes possibilidades para desenvolver as forças da Quarta Internacional. Todo este rumo era equivocado e finalmente levou a uma crise depois de outra da organização e a seu colapso final.

Estiveram igualmente equivocados nas perspectivas para o estalinismo e para a URSS. Em 1946, as perspectivas da então direção da Quarta Internacional era que, através da pressão combinada econômica, política e diplomática e das ameaças militares do imperialismo americano e britânico, o regime estalinista na União Soviética entraria em colapso. Aconteceu exatamente o contrário. Ted Grant, junto com a direção do PCR, tentou corrigir este prognóstico equivocado. Em nossa página web encontra-se toda a documentação histórica para esta e outras questões.

O PCR britânico via que, devido à nova correlação de forças na Europa, provocada pela vitória do Exército Vermelho, e devido à correlação de forças de classe, era impossível para a classe dominante impor imediatamente a reação. Os companheiros britânicos caracterizaram os regimes na Europa Ocidental (França, Bélgica, Holanda, Itália) como regimes contra-revolucionários em uma forma democrática, enquanto que outros, como Pierre Frank, insistiam na perspectiva de que a Europa Ocidental era uma ditadura bonapartista.

Ted Grant, o principal teórico do PCR, tentou corrigir as posições equivocadas da então direção da Quarta Internacional. Para mais detalhes disto, sugerimos a leitura de todos os artigos que se podem encontrar em nossa seção sobre a Quarta Internacional (Fourth International). Naquele período, em resposta a Pierre Frank, Ted escreveu: "Entre os quadros da Quarta Internacional, há companheiros que não aprenderam suficientemente esta lição. Continuam vivendo dos benefícios de umas quantas abstrações preparadas, em vez de concretizar ou retificar parcialmente as generalizações anteriores". Essa foi a raiz do problema.

A direção ignorou os argumentos da seção britânica e manteve cegamente sua posição equivocada. Em vão, os companheiros britânicos assinalaram a mudança de situação e a necessidade de revisar as perspectivas. Em vão, assinalaram os sintomas de uma recuperação econômica depois da guerra. Inutilmente, explicaram aos dirigentes da Internacional que, devido ao governo trabalhista do pós-guerra na Grã Bretanha, que estava realizando a maior parte de seu programa, as condições para a entrada no Partido Trabalhista estavam ausentes. Todos os argumentos do PCR caíram em ouvidos surdos. Era tal a estupidez desses cavalheiros que, quando perguntaram a um dos representantes do SWP americano sobre o prognóstico que Trotsky fez em 1938 de que em dez anos não restaria pedra sobre pedra da social-democracia e do estalinismo, ele respondeu dizendo que ainda faltava um ano para que esta perspectiva fosse cumprida!

Em sua Carta Aberta ao BSFI (Open Letter to BSFI. September/October 1950), Ted Grant sublinhava a nova situação mundial que surgia da guerra e avisou à Internacional:

"Estes fatores resultaram em um processo sem paralelo, que não podia ter sido previsto por nenhum dos mestres marxistas: a extensão do estalinismo como um fenômeno social em mais da metade da Europa, além do subcontinente chinês, e com possibilidades de se estender a toda a Ásia.

"Isto coloca novos problemas teóricos que devem ser abordados pelo movimento marxista. Em condições de isolamento e de escassez de forças, os novos fatores históricos poderiam inclusive levar a uma crise teórica do movimento, colocando o problema de sua própria existência e sobrevivência".

Não há a menor dúvida de que se Trotsky ainda estivesse vivo em 1945 imediatamente teria visto a necessidade de reavaliar a situação à luz dos acontecimentos. Mas os chamados dirigentes da Quarta foram incapazes de fazer isto. Simplesmente não estiveram à altura das tarefas colocadas pela história. Para eles, as questões eram muito simples: tudo o que tinham de fazer era repetir como um mantra o que Trotsky tinha escrito em 1938. Isto é, trataram as perspectivas não de forma marxista, mas metafísica. Repetiram servilmente as palavras de Trotsky, sem compreender o método de Trotsky. Da mesma forma que um papagaio repetirá os sons que parecem um discurso humano, mas sem o menor entendimento de seu significado.

O fato é que cada uma das posições defendidas pela direção "pablista" da Quarta depois da guerra, e apoiadas servilmente por Lambert e Healy, demonstrarm estar equivocadas, e cada uma das posições básicas defendidas por Ted Grant e pelo PCR demonstraram ser corretas. Isto Lambert e Gluckstein não podem tolerar. Por isso tentaram durante tanto tempo ocultar os fatos e falsificar a história da Quarta Internacional para seus seguidores. Por isso distorcem consistentemente nossas posições e as tergiversam em miseráveis pés de página. Uma tendência que se baseia na falsificação converter-se-á ela mesma em um miserável pé de página da história. Como assinalou Trotsky, a locomotiva da história é a verdade e não a mentira.

 

O ciclo econômico e a luta de classes

  Nosso cordial amigo atribui ao PCR "em particular, a posição de que as forças produtivas tinham a capacidade de se desenvolver, o que o levaria a sustentar que a social-democracia tinha um futuro histórico".

O autor dessas linhas pode ser um analfabeto político, mas tinha necessidade de maltratar a lógica, o idioma francês e até mesmo o marxismo? Que significa aquele discurso palavroso? As forças produtivas sempre têm a "capacidade" de se desenvolver, da mesma forma que a maioria dos homens e mulheres tem a "capacidade" de pensar. Se esta capacidade se manifesta ou não no desenvolvimento real da produção ou em indivíduos que realmente pensam é outra história. No caso dos lambertistas, a última proposição pode estar sujeita a sérias dúvidas.

Como vimos, os líderes da Quarta tinham uma perspectiva totalmente falsa depois de 1945, NÃO SOMENTE EM ECONOMIA, MAS EM TUDO O MAIS. Nosso amistoso crítico seleciona apenas uma questão (o desenvolvimento das forças produtivas) onde imagina (incorretamente) que se encontra em terreno seguro, esquecendo do resto. Pablo, Mandel e companhia prognosticaram uma imediata recessão (e uma guerra imediata, Bonapartismo e revolução). Devemos fazer ao nosso crítico uma pergunta direta: ESTAS PERSPECTIVAS ERAM CORRETAS, SIM OU NÃO? Há somente uma resposta possível: estas perspectivas não tinham em absoluto nada a ver com a situação real. Estavam equivocadas da primeira à última linha. Não é útil absolutamente tentar recorrer a sofismas para escapar deste fato, que é difícil de aceitar para Lambert, já que ele (diferentemente de Ted Grant) não somente compartilhou "certas idéias" com os pablistas, mas esteve em total acordo com todas essas idéias.

Não é possível separar nem um só dos elementos (as forças produtivas) do que era uma perspectiva totalmente incorreta. Sua perspectiva de uma recessão imediata somente era parte de sua ausência total de compreensão dos processos reais que se estavam desenvolvento em escala mundial. Os dirigentes da Quarta Internacional negavam qualquer possibilidade de recuperação econômica e, consequentemente, estavam prognosticando uma revolução (ou ditadura Bonapartista, ou guerra...) em cada esquina. Previram o colapso da União Soviética, quando na realidade o regime estalinista na Rússia tinha emergido enormemente fortalecido da guerra.

Um dos principais debates imediatamente depois da Segunda Guerra Mundial foi: existia alguma possibilidade de um boom ou recuperação do capitalismo? Cannon, Mandel, Healy e outros dirigentes da então Quarta Internacional se basearam numa interpretação totalmente formalista da declaração (correta) de Trotsky de que o capitalismo estava em sua "agonia de morte". Interpretaram isto (incorretamente) para dizer que, portanto, não havia margem para uma recuperação econômica depois da Guerra.

Esta posição divergia totalmente do método marxista. Lênin respondeu a isto antecipadamente, quando, ao polemizar contra os chamados comunistas de esquerda na Internacional Comunista, assinalava que não existia essa coisa chamada de "crise final do capitalismo". Enquanto a classe trabalhadora não o derrubasse, o capitalismo sempre encontraria uma saída mesmo na crise mais profunda. Ele e Trotsky sequer descartavam, como possibilidade teórica, que o capitalismo pudesse experimentar um auge considerável no futuro, se o proletariado não mostrasse uma saída através da revolução socialista.

Como Trotsky colocou a questão da luta de classes e do ciclo econômico? Em seu artigo Fluxos e Refluxos, escrito em 1921, fez a seguinte observação:

"O mundo capitalista entra num período de ascensão industrial. Os booms alternam com as depressões. Uma lei orgânica da sociedade capitalista. O atual boom de nenhuma maneira indica o estabelecimento de um equilíbrio na estrutura de classe. Uma crise frequentemente favorece o surgimento de estados de ânimo anarquistas e reformistas entre os trabalhadores. O boom ajudará a unificar as massas trabalhadoras" (Os cinco primeiros anos da Internacional Comunista. Vol. 2. p. 74. Na edição inglesa).

Que conclusões Trotsky extraiu da recuperação econômica? Chegou ele à conclusão de que isso significava o final da luta de classes? Significava a vitória inevitável do reformismo ou um "desvio de direita", como assinala o nosso crítico lambertista? Muito longe disso! Podemos ver na citação anterior qual era a posição de Trotsky. Diferentemente de Pablo e Lambert, Trotsky tinha uma atitude marxista com relação às perspectivas econômicas. A idéia de que a recessão simplesmente significaria uma revolução e de que um boom significaria uma contra-revolução é totalmente incorreta. É típico do formalismo antidialético, que é uma característica inevitável do pensamento dos sectários ultra-esquerdistas em todos os períodos.

Trotsky teve de explicar aos "esquerdistas" o ABC do marxismo. A relação entre o ciclo econômico e a luta de classes não é direta nem mecânica, como imaginam os esquerdistas, mas contraditória e dialética. Ele explica de forma equilibrada que um boom pode ter efeitos positivos ao tornar coesa a classe trabalhadora, ao curar as feridas das derrotas passadas e ao aumentar sua confiança. Deixemos que o próprio Trotsky fale:

"A imprensa capitalista está celebrando, com bater de tambores, os seus êxitos na ‘reabilitação' econômica e as perspectivas de uma nova época de estabilidade capitalista. Este êxito tem tão poucas bases como os temores complementares dos ‘esquerdistas', que pensam que a revolução deve surgir do agravamento ininterrupto da crise. Na realidade, enquanto a prosperidade comercial e industrial que se aproxima implica economicamente em novas riquezas para os círculos superiores da burguesia, todas as vantagens políticas serão nossas. As tendências em direção à unificação dentro da classe trabalhadora são somente uma expressão da crescente vontade de ação. Se os trabalhadores estão exigindo, hoje, que, no bojo da luta contra a burguesia, nós os comunistas cheguemos a um acordo com os Independentes e com os Social-Democratas, mais tarde - na medida em que o movimento cresça até alcançar uma amplitude de massas - estes mesmos trabalhadores se convencerão de que somente o Partido Comunista lhes oferece a liderança na luta revolucionária. A primeira onda da maré leva para cima todas as organizações operárias, empurrando-as a um acordo. Mas o mesmo destino aguarda os Sociais-Democratas e os Independentes: serão alcançados um depois do outro pelas próximas ondas da maré revolucionária.

"Significa isto - ao contrário do que pensam os partidários da teoria da ofensiva - que não é a crise, mas a próxima recuperação econômica que vai levar diretamente à vitória do proletariado? Uma afirmação tão categórica seria infundada. Já mostramos acima que não existe uma interdependência mecânica, mas dialética e complexa, entre a conjuntura e o caráter da luta de classes. É suficiente para compreender o futuro que estejamos entrando no período de recuperação muito melhor armados do que estávamos quando entramos no período de crise. Nos países mais importantes do continente europeu temos poderosos partidos comunistas. A quebra da conjuntura indubitavelmente abre-nos a possibilidade de uma ofensiva, não somente no campo econômico, mas também na política. É uma tarefa inútil dedicar-nos agora a especulações sobre até onde chegará esta ofensiva. Está apenas começando, está apenas se fazendo visível.

"Um sofista poderia colocar a objeção de que se nós acreditamos que a recuperação industrial ulterior não necessariamente nos levará diretamente à vitória, então começará obviamente um novo ciclo industrial, o que significa outro passo em direção à restauração do equilíbrio capitalista. Nesse caso, não se estaria realmente diante do perigo do surgimento de uma nova época de recuperação capitalista? A isto se poderia responder assim: Se o Partido Comunista não cresce; se o proletariado não adquire experiência; se o proletariado não resiste de forma revolucionária mais audaz e irreconciliável; se não consegue passar, na primeira oportunidade favorável, da defensiva para a ofensiva; então, a mecânica do desenvolvimento capitalista, complementada pelas manobras do estado burguês, sem dúvida lograria cumprir seu trabalho no longo prazo. Países inteiros serão arrojados violentamentemente na barbárie econômica; dezenas de milhões de seres humanos pereceriam de fome, com desespero em seus corações, e sobre os seus ossos seria restaurado algum novo tipo de equilíbrio do mundo capitalista. Mas tal perspectiva é pura abstração. No caminho especulativo em direção a este equilíbrio capitalista, há muitos e gigantescos obstáculos: o caos do mercado mundial, o desbaratamento dos sistemas monetários, o domínio do militarismo, a ameaça de guerra, a falta de confiança no futuro. As forças elementares do capitalismo estão procurando vias de escape entre pilhas de obstáculos. Mas estas mesmas forças elementares fustigam a classe trabalhadora e a impulsionam para frente. O desenvolvimento da classe trabalhadora não cessa, inclusive quando esta retrocede. Porque, enquanto perde posições, acumula experiência e consolida seu partido. Marcha para frente. A classe trabalhadora é uma das condições do desenvolvimento social, um dos fatores desse desenvolvimento e, sobre todas as coisas, seu fator mais importante, porque personifica o futuro".

"A curva básica do desenvolvimento industrial está buscando caminhos para cima. O movimento se torna complexo pelas flutuações cíclicas, que, nas condições do pós-guerra, mais se parecem a espasmos. É naturalmente impossível prever em que ponto do desenvolvimento se produzirá uma combinação de condições objetivas e subjetivas tais que possam produzir uma mudança revolucionária. Tampouco é possível prever se isto acontecerá no curso da atual recuperação, em seu início ou no seu final, ou com a chegada de um novo ciclo. É suficiente para nós compreendermos que o ritmo do desenvolvimento depende em grande medida de nós, de nosso partido, de suas táticas. É da maior importância levar em consideração a nova virada na economia que pode abrir um novo estágio na fusão das fileiras e na preparação de uma ofensiva vitoriosa. Porque o fato de que o partido revolucionário compreenda o que está acontecendo já implica por si mesmo uma redução do tempo e um adiantamento das datas" (Ibid. pp. 83-84).

Não está perfeitamente claro? Trotsky explica a relação dialética complexa entre o ciclo econômico e a luta de classes, que se condicionam mutuamente, mas não de forma mecânica. É possível que uma recessão possa desmoralizar os trabalhadores e adiar os acontecimentos revolucionários durante vários anos. A recessão econômica que seguiu a derrota da revolução de 1905 na Rússia teve este resultado e Trotsky, corretamente, prognosticou que seria necessária uma recuperação econômica antes que os trabalhadores tomassem de novo o caminho da revolução. Foi isto precisamente o que aconteceu no período de 1911-14.

Dever-se-ia observar que Trotsky, nos parágrafos anteriores, coloca a possibilidade teórica de um futuro período de auge do capitalismo ("uma nova época de recuperação capitalista"), se os partidos comunistas não conseguem tomar o poder. Considerava isto como improvável - apenas como uma possibilidade - porque a perspectiva era de revoluções socialistas triunfantes dirigidas pela Internacional Comunista. Em 1921, a possibilidade de uma degeneração burocrática da revolução russa não era uma consideração sequer remota. Mas o isolamento da Revolução de Outubro em condições de atraso material e cultural extremo (devido às traições da social-democracia européia), levou à degeneração estalinista, que minou a IC como instrumento da revolução socialista. Isto, por sua vez, levou à derrota da revolução na China, Alemanha, Espanha etc. , que levou, por sua vez, diretamente à Segunda Guerra Mundial.

A forma equilibrada em que Trotsky (e também Lênin, que tinha a mesma posição) tratou esta questão contrasta totalmente com o infantilismo dos "Comunistas de Esquerda", cujo método era uma vulgarização mecânica do marxismo. Os "esquerdistas" negavam qualquer possibilidade de recuperação das forças produtivas, considerando esta idéia como equivalente a uma capitulação diante do reformismo e da social-democracia. Atacaram tanto a Lênin quanto a Trotsky como "direitistas" pelo crime de lhes explicar os fatos da vida. Mas os acontecimentos posteriores demonstraram que Lênin e Trotsky tinham razão e que os "Comunistas de Esquerda" estavam completamente equivocados.

Como uma nota de pé de página, deveríamos acrescentar que, apesar da seriedade de suas diferenças políticas, a Lênin e a Trotsky nunca lhes teria ocorrido propor a expulsão dos "esquerdistas" ou utilizar o formidável aparato da Internacional Comunista para calá-los. Utilizavam o debate político para educar os quadros da Internacional e respondiam aos argumentos de seus opositores com paciência. Esta era a maneira correta, leninista, de enfrentar as diferenças dentro da organização. O método de Lambert-Gluckstein não o é.

 

"Dizer o que é!"

  A situação que surgiu depois de 1945 não era como a situação posterior ao final da Primeira Guerra Mundial. As vitórias do Exército Vermelho e a onda revolucionária que percorreu a Europa obrigaram o imperialismo americano a respaldar o capitalismo europeu por medo ao "comunismo". Por outro lado, contrariamente à previsão de Trotsky de 1938, as velhas organizações da social-democracia e o estalinismo conseguiram se situar à frente do movimento e descarrilhá-lo. A contra-revolução foi realizada de forma democrática (como aconteceu na Alemanha em 1918-20).

Esta foi a pré-condição política para a recuperação econômica e para a estabilização do capitalismo, que reforçou o controle da social-democracia sobre as massas na Grã Bretanha e em outros países. Por outro lado, as vitórias do estalinismo no Leste Europeu e na China, seguindo as vitórias espetaculares do Exército Vermelho durante a guerra, aumentaram entre as massas as ilusões no estalinismo. Contrariamente às expectativas de Trotsky, o estalinismo e o reformismo saíram reforçados durante todo um período histórico.

Ted Grant explica as razões do auge do pós-guerra do capitalismo nos seguintes termos:

"Quais são as razões básicas do que aconteceu à economia mundial durante o período posterior à Segunda Guerra?

O fracasso político dos estalinistas e dos sociais-democratas, na Grã Bretanha e na Europa Ocidental, que criou um clima favorável para a recuperação do capitalismo.

Os efeitos da guerra na destruição de bens de consumo e de capital criaram um grande mercado (a guerra tem efeitos semelhantes - embora mais profundos - na destruição de capital aos de uma recessão). Estes efeitos, de acordo com as estatísticas da ONU, não desapareceram até 1958.

O plano Marshall e outras ajudas econômicas destinadas à recuperação econômica da Europa Ocidental.

O enorme aumento do investimento na indústria.

O surgimento de novas indústrias: plásticos, alumínio, foguetes, eletrônica, energia atômica.

O aumento da produção das novas indústrias - químicas, fibras artificiais, borrachas sintéticas, plásticos, rápido aumento dos metais ligeiros, alumínio, manganês, eletrodomésticos, gás natural, energia elétrica, atividades de construção.

As enormes quantidades de capital fictício criadas pelo gasto em armamentos e que alcançou 10% da renda nacional na Grã Bretanha e nos EUA.

O novo mercado para o capital e produtos de engenharia, criado pela debilidade do imperialismo nos países em vias de desenvolvimento, proporcionando à burguesia local a oportunidade de desenvolver a indústria em escala nunca vista até então.

Todos estes fatores interagiram entre si. O aumento da demanda de matérias-primas, através do desenvolvimento da indústria nos países metropolitanos, por sua vez, influi nos países subdesenvolvidos e vice-versa.

O aumento do comércio entre os países capitalistas, particularmente de bens de capital e produtos de engenharia, devido ao aumento da inversão econômica, atuou nesse momento como um estímulo.

O papel da intervenção estatal no impulso da atividade econômica" (Ted Grant. Haverá uma recessão?)

Como trataram os dirigentes da Quarta esta situação? Não entenderam nada. Seus argumentos eram como uma cópia carbono dos chamados Comunistas de Esquerda no período de 1920-24. Afirmavam categoricamente que a economia mundial continuaria "estagnada ou em recessão". Inclusive quando os fatos estavam diante de seus narizes, e a economia capitalista começava a se recuperar, eles se negaram a levar isto em consideração. Já em 1947, quando nenhuma pessoa séria negaria que na Europa havia uma recuperação econômica, ainda se negavam a reconhecer seu erro. Então, numa tentativa de se justificarem, proclamaram que, embora houvesse certo crescimento econômico (dificilmente podiam dizer outra coisa!), o capitalismo não poderia alcançar o nível de produção obtido antes da guerra.

Esta foi uma afirmação totalmente arbitrária e acientífica, não fundada nem na teoria econômica marxista nem nos fatos. Era simplesmente uma tentativa de salvar a cara à luz da situação objetiva que estava em aberto conflito com suas previsões. Para estas pessoas, a questão mais importante não era a educação dos quadros, mas somente a manutenção do prestígio dos dirigentes: uma política desastrosa com resultados desastrosos! Na prática, o "teto" do crescimento das forças produtivas, que eles tinham colocado de forma tão ligeira, foi logo rompido e o capitalismo entrou num auge econômico que durou mais de duas décadas.

Se o marxismo fosse uma coleção de fórmulas pré-concebidas em vez de um método científico, então todo pequeno sectário ao longo da história seria tão grande quanto Marx, Engels, Lênin e Trotsky juntos. Mas as coisas não são tão simples. Os marxistas britânicos, reunidos em torno da direção do PCR, utilizando o método de Marx, Engels, Lênin e Trotsky, questionaram esta posição e foram os primeiros a assinalar que o capitalismo mundial estava entrando num período de recuperação. Eles explicaram a necessidade de reorientar as forças da Quarta Internacional na base de uma análise do que realmente estava acontecendo.

 

As forças produtivas

  Nesta questão, Pierre Lambert desenvolveu uma variedade muito estranha de equívoco sectário. Ele e seus seguidores simplesmente se apegaram à posição prévia de negar a existência de qualquer desenvolvimento das forças produtivas. Assombrosamente se aferram a esta posição até hoje. Pareciam temer a idéia de que as forças produtivas poderiam realmente se desenvolver, como se isto levasse à conclusão de que a revolução era impossível. Esta conclusão era totalmente injustificada. É uma caricatura mecânica do marxismo e que foi, há tempo, respondida por Lênin e Trotsky, como já vimos.

Marx já tinha explicado que é o próprio desenvolvimento das forças produtivas o que torna inevitável a revolução. Isso fortalece a classe trabalhadora e por fim aumenta as contradições dentro do sistema. O desenvolvimento das forças produtivas na Europa desde 1945, é verdade, causou sérios problemas ao movimento revolucionário. Foram as bases objetivas para o isolamento da vanguarda proletária e para o declínio da Quarta Internacional. Mas também teve o efeito de fortalecer a classe trabalhadora, curar as cicatrizes das derrotas do passado. Ao reduzir impiedosamente o campesinato na Itália, França, Espanha e Alemanha, debilitou a base social da reação.

O enorme desenvolvimento das forças produtivas na China, no momento atual, ao fortalecer o proletariado, está criando as condições para um poderoso auge revolucionário no próximo período. Não se deve esquecer que a maior greve geral da história, ocorrida na França em 1968, chegou quando o auge econômico do pós-guerra se encontrava no pico. Esta é uma prova suficiente de que não é necessário em absoluto negar a possibilidade de desenvolvimento das forças produtivas sob o capitalismo, com o objetivo de se manter uma política e uma perspectiva revolucionárias.

Os dirigentes do PCR foram os únicos que mantiveram um curso firme baseado nas idéias reais de Lênin e Trotsky. Por este "crime", somos agora injuriados por nossos amigos de Paris como "direitistas". Isto não é acidental. Como temos visto, os comunistas de "esquerda" também descreveram Lênin e Trotsky como "direitistas", exatamente pelas mesmas razões. Marx estava muito certo quando disse que a história se repete; primeiro como tragédia e, em seguida, como farsa. Os comunistas de "esquerda" causaram muitos danos com suas táticas e políticas ultra-esquerdistas, como a "teoria da ofensiva" que levou a uma séria derrota da classe trabalhadora alemã em 1921. Isso foi uma tragédia. Mas as palhaçadas de Lambert, Healy, Pablo, Cannon e Frank eram somente uma farsa. Eles não tinham a mesma influência na classe trabalhadora que os "esquerdistas" alemães tiveram, para testar as suas "teorias" na prática. Com a sabedoria que nos fornece o tempo transcorrido, talvez isto não tenha sido algo tão ruim.

O longo período de auge econômico durou até a primeira recessão séria de 1973-74. Durante todo um período, pelo menos nos países capitalistas desenvolvidos, o capitalismo esteve em situação de fazer grandes concessões e reformas aos trabalhadores (sistema nacional de saúde, planos de previdência etc.). Nesta situação, simplesmente repetir que o capitalismo não pode se recuperar e que a revolução se encontra logo ali na esquina, era uma bofetada na cara da realidade. Deste modo, desorientaram totalmente os quadros da Quarta Internacional.

Lênin, em certa ocasião, disse que um ultra-esquerdista é um oportunista que tem medo de seu próprio oportunismo. Isto se confirma na evolução de todas as tendências que surgiram da velha direção da Quarta Internacional. Durante as décadas passadas, vimos combinações concebíveis (e algumas inconcebíveis) de desvios ultra-esquerdistas e oportunistas. Estes grupos constantemente se giram do ultra-esquerdismo ao oportunismo e vice-versa. Tendo começado com uma caricatura das posições de Trotsky, assumindo que cada ponto e vírgula que o "velho" escreveu estava literariamente corretos, eles em seguida concluíram que as "velhas idéias" eram inúteis e sem cerimônias as abandonaram. Um caso extremo foi o do SWP americano, que já não se reclama como trotskista, nem mesmo em palavras. Mas, na realidade, os demais não são melhores.

Somente quando se tornou suficientemente óbvio que o capitalismo estava experimentando um auge econômico de proporções consideráveis, estes chamados "trotskistas" aceitaram que havia uma recuperação. Depois, de forma típica, deram uma virada de cento e oitenta graus e passaram à posição oposta. A tendência de Ernest Mandel - que se converteu no chamado Secretariado Unificado da Quarta Internacional (SUQI) - desenvolveu uma perspectiva de décadas de paz social nos países capitalistas desenvolvidos, baseada na idéia de que o capitalismo tinha resolvido de alguma forma suas contradições fundamentais através do financiamento keynesiano do déficit e da intervenção estatal. Inclusive teorizaram com a idéia do "aburguesamento" da classe trabalhadora. Os acontecimentos de 1968 na França apanharam-nos totalmente de surpresa.

Quanto a Lambert e seus seguidores, reagiram diante da situação simplesmente fechando os olhos à realidade, igual a uma criança assustada quando oculta a cabeça sob o travesseiro como se fosse ver por acaso um fantasma. Aos nossos amigos lambertistas, faríamos uma pergunta: Desenvolveram-se as forças produtivas desde a Segunda Guerra Mundial? Ou elas estão nos mesmos níveis de 1938, como pretendem? A resposta é clara para todos os que vêem as estatísticas. No que diz respeito ao assunto, o mesmo está claro para quem vive no mundo real. O problema com todos os sectários é precisamente porque eles não vivem absolutamente neste mundo.

Com sua habitual lógica de Alice no país das maravilhas, os lambertistas elaboraram um silogismo engenhoso: a) Grant prognosticou um boom econômico depois da guerra; b) portanto, acreditava que o reformismo e a Social-Democracia poderiam sobreviver; c) portanto, está a favor da Social-Democracia. Como uma pessoa inteligente pode aceitar esta lógica realmente supera toda compreensão. Mas devemos fazer ao nosso amigável crítico outra pergunta direta: Manteve-se a influência da social-democracia dentro do movimento operário internacional desde o final da Segunda Guerra Mundial, sim ou não? Para todos os que ainda habitamos o planeta Terra, esta pergunta se responde por si mesma. Já para os sectários extraterrestres, nunca poderemos estar seguros.

Isto é realmente muito simples. O poderoso boom econômico entre 1948 e 1973 foi precisamente a base material que nutriu as ilusões reformistas dentro do movimento dos trabalhadores. Nos países capitalistas avançados, pelo menos, o auge econômico permitiu certa estabilidade social e política. Estas foram as condições que fortaleceram enormemente a social-democracia dentro do movimento dos trabalhadores. Não levar isto em consideração é o mesmo que fugir da realidade. Isto significa que as pequenas forças do marxismo genuíno foram isoladas das massas e que trabalharam sob difíceis condições por todo um período histórico. Esta é a razão objetiva porque a Quarta Internacional falhou em se desenvolver no caminho que Trotsky tinha antecipado em 1938. Nadávamos contra a corrente.

De forma alguma a posição do PCR tinha ilusões na viabilidade do sistema capitalista. Apenas dizia o que realmente estava acontecendo. Eles entenderam que o capitalismo ia passar por uma recuperação temporária e que eventualmente a crise começaria novamente. Eles não imaginavam que o auge econômico duraria tanto tempo quanto durou. Eles também compreendiam que esta recuperação levaria temporariamente ao fortalecimento das ilusões reformistas no seio das fileiras do movimento dos trabalhadores. Na verdade, o reformismo foi fortalecido por todo um período histórico, enquanto as forças do marxismo genuíno (o trotskismo) retrocederam. Este é um fato incontestável. Mas a razão verdadeira porque a Quarta Internacional foi destruída neste período não pode ser explicada puramente em termos da difícil situação objetiva.

As dificuldades objetivas são somente a metade da história. Não podemos deixar de lado o fator subjetivo, a qualidade da liderança. O papel desempenhado pela "liderança" era crucial e absolutamente negativo. A primeira regra do materialismo dialético é: sempre diga o que é. Os marxistas partem da situação real, não importa qual seja o seu sabor. Para reorientar as forças da Quarta Internacional, era absolutamente necessário levar em consideração a nova situação objetiva. Foi isto que a liderança da Quarta foi incapaz de fazer. Ela se mostrou completamente inadequada para as necessidades da situação e, em conseqüência, cometeram uma completa série de erros que destruíram a Internacional.

Numa guerra, a influência de bons generais quando um exército está avançando é decisiva. Mas é ainda mais decisiva quando o exército é compelido a se retirar. Em tais circunstâncias, com bons generais, o exército pode se retirar em boa ordem, mantendo suas perdas no mínimo, capacitando o exército a se entricheirar e preparando-o para uma nova ofensiva quando as condições o permitirem. Mas os generais incompetentes sempre converterão uma retirada em fuga desordenada. Foi isto o que aconteceu à Quarta Internacional.

 

Grã Bretanha

  A nota de pé de página aludida tira uma peculiar conclusão das perspectivas econômicas do PRC. Eles dizem que o reconhecimento de uma recuperação econômica depois da Guerra leva-os a sustentar que "a social-democracia tinha um futuro histórico". Bem, seis décadas depois, que tem a dizer La Verité sobre a Social-democracia? Existe ou não? Evidentemente, existe; e até tem uma grande influência sobre milhões de trabalhadores.

Na Grã Bretanha, o Partido Trabalhista recebe regularmente os votos de milhões de trabalhadores, a despeito das abomináveis políticas de Blair. Os trabalhadores são muito críticos a Blair, que é odiado pelos ativistas. Mas, depois de nove anos de Novo Trabalhismo, todas as tentativas dos sectários para construir uma alternativa séria ao Partido Trabalhista têm fracassado estrepitosamente. A Aliança Socialista colapsou. Agora, o Partido Socialista Escocês se dividiu. Os outros grupelhos sectários não merecem mesmo ser mencionados.

Qual a razão desta estranha situação? É muito simples: os trabalhadores britânicos não vêem alternativa viável ao Partido Trabalhista. Quando não votam nos trabalhistas, não votam em mais ninguém. Tal fato pode ser muito difícil de aceitar para algumas pessoas, mas é uma realidade. Os principais sindicatos ainda estão filiados ao trabalhismo e proporcionam-lhe a maioria de seus fundos. Eles também têm 50% dos votos no congresso do Partido Trabalhista. Em outras palavras, Blair não conseguiu separar o Partido Trabalhista dos sindicatos. Esta é uma questão decisiva para as futuras perspectivas da classe trabalhadora britânica.

A questão do Partido Trabalhista foi sempre a questão central dos marxistas britânicos. Lênin se ocupou disto em muitas ocasiões, particularmente em A Doença Infantil do ‘Esquerdismo' no Comunismo. Trotsky escreveu mesmo mais sobre o Partido Trabalhista e sobre a necessidade dos trotskistas britânicos de conduzir um sério e sistemático trabalho dentro dele. Para qualquer um com o mais modesto conhecimento da teoria marxista e das condições reais na Grã Bretanha, a necessidade de trabalhar no Partido Trabalhista é o ABC da questão. Mas os sectários sempre reagiram com ódio diante desta sugestão. Para eles, trabalhar dentro do Partido Trabalhista é o mesmo que apoiar Blair!

Este argumento é simplesmente infantil. Mas é tão generoso! Uma criança de seis anos poderia entender que é possível trabalhar no Partido Trabalhista e lutar contra Blair. Na verdade, o único meio de lutar efetivamente contra Blair é pela condução de uma luta no Partido Trabalhista e nos sindicatos que estão inseparavelmente ligados ao Partido Trabalhista. Esta é a única forma de construir uma tendência marxista viável na Grã Bretanha.

O argumento de que, trabalhando no Partido Trabalhista, nos desacreditaremos associando-nos com a ala traidora de direita não é novo. Este argumento já foi respondido por Lênin em seus debates com os "Comunistas de Esquerda" britânicos, como Willie Gallagher:

"O camarada Gallagher está errado em afirmar que, advogando a filiação ao Partido Trabalhista, repeliremos os melhores elementos entre os trabalhadores britânicos. Devemos verificar isto na prática. Estamos convencidos que todas as resoluções e decisões que serão adotadas por nosso Congresso serão publicadas em todos os jornais revolucionários socialistas britânicos e que todos os ramos e sessões estarão aptos a discuti-las.

"Todo o conteúdo de nossas resoluções mostra com cristalina claridade que somos os representantes das táticas revolucionárias da classe trabalhadora em todos os países e que nosso objetivo é o de lutar contra o velho reformismo e o oportunismo. Os acontecimentos revelam que nossas táticas estão de fato derrotando o velho reformismo" (Discurso sobre a filiação ao Partido Trabalhista Britânico, seis de agosto de 1920. Segundo Congresso da Internacional Comunista, 19 de julho - sete de agosto de 1920).

Quem quer que leia Socialist Appeal ou nosso endereço na web, www.marxist.com, não pode ter nenhuma dúvida de que defendemos o programa e a política do marxismo revolucionário, e que no Partido Trabalhista e nos sindicatos da Grã Bretanha nós estamos de fato "lutando contra o velho reformismo e o oportunismo". A despeito destes fatos óbvios, La Verité sente-se livre para repetir a escandalosa afirmação de que o Socialist Appeal britânico de alguma forma apóia Blair! Eles citam um artigo, Grã Bretanha: Blair deve ir embora, mas Brown não é melhor, escrito por Phil Mitchinson, e fazem o seguinte comentário:

"Portanto, coloca-se a questão: poderia o Partido Trabalhista afastar Blair o "privatizador", Blair o açougueiro do Iraque? O grupo Grant-Woods declara-se como ‘a fração marxista' no Partido Trabalhista. Então, qual é a sua posição? Em quatro de outubro de 2005, exatamente depois da celebração do congresso do partido, foi publicado um artigo sob o título ‘Blair deve ir embora'. Embora, depois, rapidamente declare ‘mas Brown não é melhor'. Além da substituição de Blair por outro indivíduo que ‘não é melhor', não há outros assuntos que preocupam os ativistas do Partido Trabalhista?".

Como interpretam os lambertistas o que dissemos? Eles dizem o seguinte:

"Qual deveria ser a conclusão? Que a remoção de Blair é impossível? Que, em qualquer caso, quem o substituir ‘não seria melhor'?".

Desde o início vemos o rude e desonesto método adotado pelo autor deste ataque. Tony Blair está acabado. Ele terá de abdicar como líder do Partido Trabalhista em alguns meses. Alguns dirigentes sindicais estão se preparando para apoiar Brown em sua tentativa de tornar-se o próximo dirigente do Partido Trabalhista. O propósito do artigo no Socialist Appeal foi o de combater as ilusões, que se estão disseminando dentro do movimento trabalhista britânico, de que Brown, por alguma razão, seria melhor do que Blair, quando, na realidade, ele tem servido lealmente os interesses do capital britânico como ministro da economia. Mais uma vez, La Verité inverte os fatos.

Nossos leitores podem ver o nosso artigo de outubro de 2005 por si mesmos, mas citaremos exatamente os últimos três parágrafos para deixar clara nossa posição:

"Deve-se fazer um desafio real à agenda Blair/Brown das grandes empresas em todos os níveis do movimento trabalhista. Não podemos esperar por mais dois, três ou quatro anos. Aqueles dirigentes sindicais que têm apoiado Brown devem despertar para a realidade. O sinal de alarme deve ser tocado para as fileiras. Se os sindicatos unirem seus recursos em apoio a um real candidato de esquerda, poderiam exercer uma grande influência. Nenhum apoio seria dado a qualquer candidato que não apóie a retirada das tropas do Iraque, que não se oponha às privatizações, que não apóie a renacionalização das ferrovias e que não suprima as leis antisindicais. Isto é o mínimo que se requer.

"Um candidato de esquerda como John McDonnel, por exemplo, mesmo que não ganhe a eleição à direção, poderia abrir a porta a um debate real sobre a necessidade de políticas socialistas.

"O processo de questionamento na sociedade, de mudanças nos sindicatos, que já começou, não desaparecerá. A tarefa dos socialistas e dos sindicatos não deve ser o de se agrupar em torno de qualquer candidato que possa vencer, independentemente de sua política, mas o de organizar em uma força real de mudança, o descontentamento, a busca, o aumento da militância na sociedade britânica. Mudanças dentro do movimento trabalhista e mudanças dentro do Partido Trabalhista, como passos em direção a mudança que realmente interessa - a transformação radical da sociedade".

Tendo começado com esta falsificação vulgar de nossa posição, o autor continua:

"Temos de esperar até 10 de novembro... para encontrar outro artigo nas publicações de Woods-Grant".

Nosso amável crítico sequer fez o seu trabalho adequadamente. Ele convenientemente ignora um outro artigo de Phil Mitchinson, "Guerra ao Terror" usada como desculpa para reduzir gradualmente as liberdades civis elementares na Grã Bretanha, publicado em 25 de outubro de 2005. Este artigo foi dedicado ao ataque de Blair às liberdades civis, e nossos leitores podem ver o texto em nosso endereço eletrônico.

O artigo de 10 de novembro, The last but one nail in Blair's coffin, é então citado numa renovada tentativa de provar que a tendência marxista na Grã Bretanha apóia Tony Blair. Como fazem isto? Através da má tradução de uma frase do inglês para o francês. No original inglês o artigo diz:

"This first parliamentary defeat for Blair may prove to be the penultimate nail in his coffin. When will he go? That question cannot be answered with any certainly. Not a day too soon, obviously". ("Esta primeira derrota parlamentar de Blair pode ser o penúltimo prego no seu caixão. Quando irá embora? A pergunta não pode ser respondida com certeza. Obviamente, quanto antes melhor").

Em inglês, a expressão "not a day too soon" significa "quanto mais cedo se vá, melhor". Mas, em francês, nosso autor lambertista traduziu "not a day too soon" como "pás de sitôt, de tout evidence". Isto significa "não tão cedo, obviamente". Qualquer leitor francês poderia concluir disto que a posição do Socialist Appeal britânico é que Blair não deve ir embora tão cedo. A tradução real para o francês teria sido "pás (um jour) trop tôt", ou "il est grand temps" (já é hora!), isto é, já deveria ter acontecido antes.

Não satisfeito em adulterar a tradução, os lambertistas em seguida adicionam a sua própria versão e dizem:

"Temos aqui, então, a mensagem que esta fração ‘marxista' endereça aos ativistas do Partido Trabalhista e aos sindicatos, ‘Blair ne peut pás, ne doit pas partir'". Isto significa: "Blair não pode e não deve ir embora".

Isto é exatamente o oposto da posição defendida em cada um dos artigos que têm aparecido no Socialist Appeal sobre este assunto. Se isto é uma brincadeira, é de muito mau gosto. Nem mesmo nossos mais implacáveis opositores na Grã Bretanha (e temos alguns) nos acusaram de apoiar Blair. Nosso amável crítico lambertista o faz sem vacilar - e sem mesmo um sorriso! Para esclarecer o tema, citaremos adiante dois parágrafos do mesmo artigo de 10 de novembro:

"A derrota de Blair ontem torna a queda do blairismo mais próxima e, portanto, é bem vinda. Contudo, isto está longe do final do assunto; pelo contrário, é somente o início. Um novo capítulo foi aberto na luta pelo Partido Trabalhista. Rebeliões parlamentares podem desempenhar um importante papel no processo, particularmente se estão ligadas à luta do restante do movimento trabalhista. Esta luta não pode ter como objetivo a simples ambição de substituir Blair por Brown, ou algum outro clone, tem de mirar mais alto. O objetivo deve ser o de recuperar o Trabalhismo para a classe trabalhadora, e o de lutar por políticas socialistas".

E continua:

"Há somente uma força que pode derrotar Blair - as fileiras dos sindicatos e do partido. Não é exatamente pelo voto nas câmaras parlamentares, mas dentro do movimento trabalhista que Blair e companhia devem ser derrotados. O que se necessita agora é de uma combativa defesa sindical de empregos e pensões combinada com uma luta contra os "blairistas", em defesa das liberdades civis e por políticas socialistas dentro do trabalhismo".

Ao tratar da posição de nossos camaradas britânicos do Socialist Appeal, vale a pena oferecer uma lista de alguns dos artigos oferecidos em seu jornal durante o último período:

Edição 119, de fevereiro de 2004: "Lies on Iraq, lies on fees... Make Blair Pay".

Edição 126, de abril de 2005: "Troops out of Iraq. No to Blairism! Fight for Socialist policies!".

Edição 131, de abril de 2005: "Don't let the Tories in... and kick them out of Labour".

Edição 133, de junho de 2005: "Unions must drive Blarism out".

Edição 141, de abril de 2006: "Lies, deceit, corruption... Blair must GO!".

Edição 143, de junho de 2006: "Ditch Blairism now".

Edição 144, de julho/agosto de 2006: "Left Must Challenge Blair and Brown".

Edição 145, de setembro de 2006: "Labour needs Socialism Not Blairism".

Estas são as nossas manchetes de primeira página. Acreditamos que elas falam por si mesmas.

 

A União Européia

  Depois de falsificar a nossa posição sobre a Grã Bretanha, passaram a fazer o mesmo com nossas posições sobre a União Européia. Novamente eles tentaram apresentar o oposto do que defendemos. O que supostamente defendemos? Absolutamente nada. Eles afirmam que somos indiferentes a esta questão. Sim! Somos tão indiferentes que escrevemos um longo documento sobre isto, quase um pequeno livro. Este foi escrito por Alan Woods em junho de 1997 e se intitula A Socialist Alternative to the European Union. Eles extraem citações deste documento com sua habitual maneira de selecionar:

"Não estamos nem a favor nem contra a retirada da UE sobre a base do capitalismo. Os interesses da classe trabalhadora não [estão] representados em nenhum dos casos... Não obstante, não deveríamos cair em ilusões, como fazem os esquerdistas, de que as medidas de austeridade são simplesmente conseqüências de Maastricht. Maastricht é usado como desculpa ou como cortina de fumaça para os cortes e ataques que se estão produzindo por toda a Europa. Estes ataques se produziriam igualmente com ou sem Maastricht".

A isto, acrescentam sua própria tradução (e já vemos que são excelentes tradutores):

"Tradução: como o socialismo não se realizou, a política e as instituições da União Européia são questões indiferentes para a classe trabalhadora da Europa. Mas, em que planeta vivem os nossos grandes ‘revolucionários'?".

Acreditamos viver sobre um planeta chamado terra, onde como regra as leis da lógica se aplicam em debates normais. Mas que espécie de debate é este, quando se falsificam sistematicamente os argumentos do oponente? Mais uma vez, o método utilizado é desonesto, ao eliminar o que não se adapta às idéias pré-concebidas do autor. Isto é tipicamente um método estalinista que não tem nada a ver com as tradições honestas e democráticas do movimento trotskista.

Para esclarecer o que foi dito naquele artigo, em vez de tirar citações fora do contexto, dispensemos os amáveis serviços de nosso "tradutor" e permitamos ao autor falar por si mesmo. As citações seguintes fornecem a posição real de nossa tendência sobre a União Européia. Nós sublinhamos o extrato que eles citaram fora do contexto e em todas as citações posteriores usaremos o mesmo método de sublinhar o que eles citam fora do contexto:

"Nossa posição sobre a UE é semelhante à posição de Marx na controvérsia sobre livre mercado ou protecionismo de seu tempo. Ele explicou que os interesses da classe trabalhadora não são nem pelo livre comércio nem pelo protecionismo, mas pelo socialismo internacional. [Explicou] que o debate sobre livre comércio refletia os interesses de diferentes setores da classe dominante. Isto era uma armadilha para favorecer os dois lados na disputa, e o movimento dos trabalhadores tinha de adotar uma posição política independente. Nós também. Não somos nem a favor nem contra a retirada da União Européia sobre as bases do capitalismo. Os interesses da classe trabalhadora não estão representados neste caso".

E, mais uma vez:

"A União Européia é nada mais que um clube capitalista, uma glorificada união aduaneira, estabelecida para promover os interesses dos grandes monopólios europeus. Ela nada tem em comum com os interesses da classe trabalhadora. Este é o nosso ponto de partida. Nossa oposição à UE é exatamente a mesma que temos ao capitalismo ou ao capitalismo em geral. Temos uma posição de classe claramente independente. A única alternativa à União Européia capitalista é os Estados Unidos Socialistas da Europa.

"Esta é a nossa posição geral. Contudo, é necessário ligar as demandas gerais ao programa concreto de luta contra todas as tentativas de colocar o peso da crise do capitalismo sobre os ombros da classe trabalhadora, dos idosos, dos desempregados, dos doentes, das mulheres e da juventude. Há uma oposição crescente no movimento trabalhista, particularmente na esquerda, contra os critérios de Maastricht para a união monetária. Nós nos opomos a Maastricht, como nos opusemos a todas as medidas capitalistas contra a classe trabalhadora. Não obstante, não devemos cair na ilusão, como o fazem os esquerdistas, de que as medidas de austeridade são simplesmente devidas a Maastricht. Maastricht é usado como uma desculpa ou cortina de fumaça para os cortes e ataques que estão tendo lugar através da Europa. Estes ataques teriam lugar com ou sem Maastricht. De acordo com o direitista Economist, "os custos do trabalho estão demasiado altos". Eles devem ser reduzidos para colocar o capitalismo europeu sobre seus pés. Esta situação deriva da crise do próprio capitalismo. Esta é a razão porque as medidas de austeridade estão sendo implantadas simultaneamente através do mundo capitalista, da Europa ao Japão e aos EUA.

"A despeito de todas as contradições, as principais potências capitalistas na Europa, particularmente a Alemanha e a França, estão determinadas a impor o Euro. O plano é o de introduzi-la no início de 1999. Mas isto pode ser facilmente afastado naturalmente com o advento de uma nova recessão mundial. Qual é o nosso ponto de vista sobre o Euro? Primeiramente, não podemos considerá-lo no abstrato. Quem o está introduzindo e por que está sendo introduzido? Sob o capitalismo, temos de nos opor à introdução de uma moeda única, que será utilizada para reduzir os níveis de vida. Obviamente, numa Europa socialista, uma moeda comum seria introduzida para facilitar o planejamento e o intercâmbio. Mas, sob o capitalismo, a questão é diferente. A moeda única não é um tema abstrato: temos de considerar concretamente como será utilizada a sua implantação para levar adiante ataques contra as condições de vida etc. Em outras palavras, temos de extrair todas as implicações e conseqüências de uma moeda única capitalista para a classe trabalhadora. Em qualquer referendo, pediríamos o "não" e contraporíamos o argumento de uma Europa socialista".

Aqui, o método de citação utilizado por nosso amável crítico revela-se em toda a sua glória. Omite de maneira conveniente a frase que diz: "Estávamos contra Maastricht porque nos opomos a todas as medidas capitalistas prejudiciais à classe trabalhadora". Por que fez isto? Porque isto nega totalmente o seu argumento de que somos "indiferentes ao Tratado de Maastricht".

Há uma nova tentativa de apresentar a nossa posição como a de alguém que vê a UE como algo progressista. Citam o nosso artigo: La débâcle de Constitución Europea. La naturaleza real de la Unión Europea al descubierto, escrito por Roberto Sarti e Fred Weston em dezembro de 2003:

"Maastricht, o Euro e todos os outros acordos tiveram o resultado de internacionalizar a luta de classes dentro das fronteiras da UE. Em todos os lugares, os trabalhadores estão enfrentando as mesmas políticas. Em todos os lugares, as pensões, os benefícios do estado do bem estar social, a educação, o transporte público, tudo se encontra sob ataque. E, em todos os lugares, vemos greves e manifestações contra estas medidas, desde a Áustria à Grécia, da Itália à Espanha. Nenhum país está imune a este processo".

Este parágrafo inteiro diz algo que é bastante óbvio para qualquer observador inteligente. Como o acordo de Maastricht implica na aplicação dos mesmos recortes no gasto social para toda a UE, os mesmos ataques às pensões e à educação etc., isto provoca uma reação semelhante em todos os estados membros. Os trabalhadores da Europa mobilizam-se contra estes ataques. Não podemos entender onde está equivocada esta declaração tão óbvia. Qual é a sua objeção? Tentam ridicularizar a nossa declaração dizendo: "Portanto, a União Européia é um motor que impulsiona a luta de classes...". Isto é tão ridículo quanto alguém dizer que a existência do capitalismo impulsiona a luta de classes e depois ser atacado por ter ilusões no capitalismo! Eles regressam mais uma vez ao artigo de Alan Woods: Uma alternativa socialista à União Européia, de onde citam o seguinte:

"Os mercados nacionais separados da Grã Bretanha, França, Alemanha e os demais países do velho continente eram demasiadamente pequenos para os monopólios. O Mercado Comum foi criado para tentar superar essa limitação. Os grandes monopólios esperavam com ilusão um mercado regional ilimitado de centenas de milhões de consumidores e, além disto, o mercado mundial. Devido ao auge econômico, os capitalistas europeus tiveram em grande parte êxito nessa glorificada união aduaneira, onde a abolição das tarifas entre os países do Mercado Comum e a introdução de uma tarifa comum com o resto do mundo serviram para estimular e desenvolver o comércio mundial".

Mais uma vez cometem um erro de tradução. Em francês, em lugar de "glorificada união aduaneira", encontramo-nos com "glorieuse union douanière", isto é, "gloriosa união aduaneira". A diferença é evidente para quem desejar entender. A primeira interpretação errada (sobre Blair) poderia ser aceita como um erro, mas agora isto parece ser um padrão. Por que se preocupar em traduzir o que se diz realmente, quando se pode transformar o significado em seu contrário, com o objetivo de polemizar?

Em qualquer caso, uma citação mais longa do artigo situa-nos no contexto adequado:

"O mercado comum foi criado numa tentativa da burguesia européia de superar a estreiteza do Estado nacional, com seus respectivos mercados nacionais limitados. Historicamente, o Estado nacional desempenhou um papel essencial no desenvolvimento do capitalismo, ao proteger e desenvolver o mercado nacional. Contudo, com a divisão internacional do trabalho e o desenvolvimento das comunicações, da técnica, da ciência, das companhias multinacionais e do mercado mundial, as forças produtivas entraram em conflito com a limitação das fronteiras do Estado nacional, assim como com a propriedade privada dos meios de produção. Esta contradição se refletiu nas guerras mundiais de 1914-18 e 1939-45 e a crise do período compreendido entre ambas.

"O desenvolvimento do comércio mundial no pós-guerra permitiu ao sistema capitalista superar esta contradição de forma parcial e temporária. Os mercados nacionais separados da Grã Bretanha, França, Alemanha e os demais países do velho continente eram demasiadamente pequenos para os monopólios. O Mercado Comum foi criado para tentar superar essa limitação. Os grandes monopólios esperavam com ilusão um mercado regional ilimitado de centenas de milhões de consumidores e, além disto, o mercado mundial. Devido ao auge econômico, os capitalistas europeus tiveram em grande parte êxito nessa glorificada união aduaneira, onde a abolição das tarifas entre os países do Mercado Comum e uma tarifa comum com o resto do mundo serviu para estimular e desenvolver o comércio mundial".

Mais uma vez nosso crítico comete o pecado de omissão. Como se pode ver em sua citação, desaparece uma frase fundamentalmente importante: "O desenvolvimento do comércio mundial no pós-guerra permitiu ao sistema capitalista superar esta contradição de forma parcial e temporária" (a ênfase é minha).

Nunca dissemos que o capitalismo tem sido capaz de resolver suas contradições fundamentais. A União Européia era uma tentativa dos capitalistas de contornar o obstáculo fundamental do Estado nacional através da construção de um mercado maior, mas, como explicamos sistematicamente em todos os nossos artigos sobre esta questão, eles não podem eliminar totalmente os Estados nacionais, nem conseguir uma verdadeira unificação da UE em um só Estado. Simplesmente assinalamos que, sobre a base do boom do pós-guerra, eles foram capazes de superar "de forma parcial e temporária" algumas das contradições básicas. Não é preciso muito esforço de compreensão para se entender que, se o capitalismo passa através de seu boom mais longo e forte da história, teria mais margens de manobra para as diferentes classes capitalistas nacionais. Isto não implica, de forma alguma, que se tenha produzido uma mudança fundamental do sistema. As mesmas leis que foram estabelecidas por Marx continuam funcionando, e, inevitavelmente, em alguma etapa, o sistema entrará em crise severa.

Depois de Alan Woods, é a vez de Maarten Vanheuverswyn ver como são retiradas do contexto citações de seu artigo, para dessa forma se demonstrar o contrário do que realmente está dizendo. Em seu artigo, La Unión Europea se enfrenta a la crisis más profunda de su historia, escrito em junho de 2005, mais uma vez eliminam convenientemente elementos que contradiziram as tentativas de distorção do autor lambertista. Aqui, o que temos é uma tentativa de apresentar nossa posição como se fosse de apoio à União Européia. Eles citam o seguinte:

"Embora a ampla análise elaborada pelos marxistas tenha demonstrado ser correta (como o revela a atual crise), a expansão da União Européia dos seis países originais a 25, e a integração de suas economias foi mais além do que antecipamos originalmente. Isto se deve, principalmente, ao desenvolvimento do comércio mundial e ao auge geral do capitalismo mundial no período de 1948-74, de que todos se beneficiaram.

"Tudo isto se baseou numa alta taxa de crescimento econômico. Isto possibilitou um desenvolvimento significativo das forças produtivas durante um tempo. Neste contexto, a maior integração das economias das principais potências européias interessava a todas elas".

Já deixamos clara a nossa posição sobre a UE. Mas, novamente acrescentam o seu próprio comentário na citação anterior, para distorcer ainda mais o que dissemos. Eles dizem o seguinte:

"Sim, vocês leram corretamente. Essa tendência pretende que a União Européia tem sido um instrumento para o desenvolvimento das forças produtivas, e que tem estimulado o desenvolvimento do comércio mundial! E, além disto, que a criação deste ‘mercado comum' tem permitido a unificação das lutas dos trabalhadores através da Europa.

"Se isto corresponde aos fatos, então, na realidade, como o fazem os senhores Woods e Grant, teríamos de apoiar de uma forma apenas crítica a União Européia, a unificação dos mercados nacionais em mercados mais amplos, já que o regime de propriedade privada dos meios de produção permite o desenvolvimento das forças produtivas e, em particular e principalmente, a classe trabalhadora. Mas, em que mundo vivemos?".

Não sabemos em que mundo eles vivem, exceto que deve ser um mundo onde a distorção e as mentiras são aparentemente métodos aceitáveis na discussão de idéias políticas. Aqui, realizam um rápido jogo de mãos como um mágico, confundindo uma coisa com outra e fazendo desaparecer outras coisas. Ignoram o fato de que o companheiro Vanheuverswyn faz referência especificamente ao período de 1948-1974, esse período da história que viu o maior desenvolvimento das forças produtivas em escala mundial, não somente na história do capitalismo, mas em toda a história da humanidade. Foi este poderoso desenvolvimento que colocou as bases para o êxito parcial em conseguir a integração econômica dentro das fronteiras da União Européia.

É verdade que, desde 1974, a taxa de crescimento foi reduzida significativamente e que, nos últimos anos, foi estancada. Sobre esta base, as contradições nacionais entre os estados membros da UE estão agora aumentando. As tentativas de impor a Constituição Européia fracassaram. Tudo isto é conseqüência da crise do sistema em seu conjunto. Mas negar que houve crescimento é o mesmo que dar as costas à realidade.

 

A palavra de ordem dos Estados Unidos da Europa

  Quando se trata da questão da União Européia, é necessário partir do fundamental. Já no O Manifesto Comunista, Marx e Engels explicavam que o capitalismo desenvolve um mercado mundial. O atual fenômeno da globalização já foi antecipado nas páginas de O Manifesto Comunista. A manifestação mais importante da época atual é o esmagador domínio do mercado mundial que se abriu sob os pés dos velhos estados nacionais.

A crise da humanidade representa o fato de que o capitalismo já não é capaz de desenvolver as forças produtivas como fez no passado. As principais barreiras ao desenvolvimento das forças produtivas em escala mundial são, de um lado, a propriedade privada dos meios de produção, e, de outro, o estado nacional. A tarefa da revolução socialista é a de eliminar estas barreiras e eliminar o estado nacional, estabelecendo o socialismo mundial.

A UE era a admissão tácita, por parte da burguesia européia, de que o crescimento das forças produtivas tinha superado os estreitos limites do estado nacional, particularmente os estados europeus que se encontravam comprimidos entre o poder do imperialismo americano, por um lado, e pela Rússia estalinista, por outro. Eles tentaram formar um bloco comercial que compensasse a sua debilidade. A idéia original do imperialismo francês era a de que ele dominasse a Europa, com a Alemanha como sócio de segunda categoria, mas não aconteceu assim. Isto é explicado por Alan Woods em Uma Alternativa Socialista para a União Européia.

A idéia de que a Europa poderia ser unificada sob o capitalismo é, como explicou Lênin, uma utopia reacionária. É reacionária porque representaria outro bloco imperialista. É utópica porque a burguesia é incapaz de unificar a Europa. As contradições nacionais são demasiadamente fortes para permitir a unificação da Europa, que seria um acontecimento progressista. Mas isso somente é possível mediante a expropriação dos bancos e dos monopólios. Somente a classe trabalhadora pode levar à prática a unificação da Europa por meios revolucionários. A palavra de ordem dos Estados Unidos Socialistas da Europa (e uma Federação Socialista da América Latina) é um reflexo deste fato.

Em Uma Alternativa Socialista para a União Européia, lemos:

"Há cem anos, Karl Marx explicava que, na luta entre os liberais e os conservadores sobre livre comércio ou protecionismo, a classe trabalhadora tinha de manter uma posição independente. Não devia ficar a favor de nenhuma das duas, porque era simplesmente uma luta entre diferentes setores da burguesia, em que os trabalhadores não tinham nenhum interesse.

"O atual debate sobre a UE tem uma notável semelhança com essa controvérsia. Então como agora, há uma notável diferença de opinião entre vários setores da classe capitalista britânica. A aristocracia agrária, para sua própria conveniência, defendia o protecionismo, enquanto a burguesia industrial, defendendo também seus próprios interesses, era partidária do livre comércio. As débeis burguesias da França e da Alemanha estavam a favor do protecionismo. No curso dessa luta, que se converteu em extremamente acalorada, os setores rivais da classe dominante tentaram conseguir o apoio da classe trabalhadora. Qual foi a posição de Marx e Engels? Adotaram uma firme posição de independência de classe e aconselharam os trabalhadores a negar o apoio a qualquer dos dois lados. Isto sucedeu, apesar de que, abstratamente, poder-se-ia argumentar que o livre comércio era mais progressista que o protecionismo. Contudo, questões desta natureza nunca podem ser colocadas em abstrato. É necessário colocar a questão de maneira concreta, isto é, a partir de um ponto de vista de classe. E está claro que os interesses da classe trabalhadora não passam por nenhuma dessas políticas. Somente uma política socialista pode servir aos interesses da classe trabalhadora. Isto continua sendo aplicável tanto hoje quanto há 150 anos, quando Marx escreveu o seu discurso sobre o livre comércio. Pode ser que hoje as questões sejam algo diferentes, mas os princípios são idênticos".

Nossos críticos sacam do contexto, novamente, uma citação de Alan Woods:

"Que futuro teria isolados pequenos países como a Grã Bretanha, a França ou inclusive a Alemanha? A idéia de combinar os recursos econômicos da Europa e do conjunto do mundo é uma meta progressista que representa a única saída séria à atual crise da humanidade. Os dois principais obstáculos que estão impedindo um maior desenvolvimento da indústria, da agricultura, da ciência e da técnica mundiais são a propriedade privada dos meios de produção e o Estado nacional".

 

Omitindo-se o que vem antes e depois desta citação, o leitor fica com a impressão de que acreditamos que a UE é de algum modo progressista. Isso é totalmente falso. É o mesmo método estalinista de citar de forma seletiva. Se reproduzirmos a citação em sua totalidade, demonstra-se precisamente o contrário do que pretendem os lambertistas:

"A oposição à Europa dos monopólios não significa que devamos apoiar a ‘independência nacional' defendida pelos eurocéticos. A política de autosuficiência nacional (autarquia) fracassou em todos os lugares onde foi posta em prática, e ainda mais na época moderna, onde tudo se decide na economia mundial. A tentativa de construir o ‘socialismo em um só país' levou ao desastre na Rússia e na China, embora ambos possuam poderosas economias baseadas nos recursos de subcontinentes. Que futuro teriam isolados pequenos países como a Grã Bretanha, a França ou inclusive a Alemanha? A idéia de combinar os recursos econômicos da Europa e do conjunto do mundo é uma meta progressista que representa a única saída séria à atual crise da humanidade. Os dois principais obstáculos que estão impedindo um maior desenvolvimento da indústria, da agricultura, da ciência e da técnica mundiais são a propriedade privada dos meios de produção e o Estado nacional. Somente eliminando estes obstáculos pode a sociedade se liberar das algemas que freiam seu desenvolvimento. Desta maneira, a alternativa real à UE capitalista não é a ‘independência nacional', mas os Estados Unidos Socialistas da Europa.

"Como Lênin explicou há tempos é impossível uma Europa autenticamente unida sob o capitalismo. Os interesses nacionais separados de cada classe capitalista estão aí. Em qualquer caso, as propostas da UE e de Maastricht estão muito longe disto. Mas, inclusive se fosse possível de conseguir, seria totalmente reacionária, uma vez que somente se poderia chegar a ela através dos meios mais brutais. Hitler tentou através da conquista militar".

Mas troquemos de argumento por um momento. Vejamos que posição adotam os lambertistas sobre a UE. Por razões somente conhecidas por eles mesmos, os lambertistas fizeram da UE um fetiche, que consideram a origem e a causa de todos os nossos problemas.

Eles lançam um desafio peremptório a todos: a favor ou contra a UE! Diante disso, encolhemos os ombros e respondemos: contra. Contudo, a resposta absolutamente não esgota o assunto. É necessário dizer por que nos opomos, de que ponto de vista de classe, e o que propomos em seu lugar.

Que é necessário se opor à UE capitalista é evidente por si próprio. Mas é possível se opor à UE a partir de muitos pontos de vista diferentes, e nem todos progressistas. Em cada país europeu, os reacionários de extrema direita também se opõem à UE. Em cada campanha e referendo sobre esta questão, estes elementos levantam a cabeça: fascistas, xenófobos, racistas e chauvinistas reacionários, como Le Pen, Haider e a ala direita do Partido Tory britânico. Sim, estes elementos estão decididamente contra Maastricht e todas as suas obras. Mas o fazem a partir do ponto de vista dos setores mais reacionários das classes dominantes.

Quando os lambertistas nos acusam de ser "indiferentes" ante a UE, o que querem dizer? Que a ignoramos? Mas simplesmente não é este o caso; nós temos uma posição muito clara sobre esta questão. Então, que estamos a favor da UE? Este argumento tem tanta validade como o de que estamos a "favor de Tony Blair", isto é, nenhuma em absoluto. Mas isto não detém os nossos amigos do outro lado do Canal da Mancha de dizer o que queiram. Como dizem os jornalistas da imprensa marrom: "Por que deixar que os fatos arruínem uma boa história?". Não, o que eles querem dizer é que os verdadeiros trotskistas da CMI estão contra a UE e a favor dos Estados Unidos Socialistas da Europa. Isto era bom para Trotsky e é bom para nós. Mas, pelo que parece, não é suficientemente bom para Lambert e Gluckstein.

O marxismo não tem nada em comum com o nacionalismo nem com o chauvinismo. Não se deve fazer nenhum tipo de concessão a este veneno que pode desorientar a classe trabalhadora, baixar sua consciência de classe e fomentar ilusões em idéias como a "soberania nacional". Os reformistas de esquerda e os estalinistas têm uma posição equivocada sobre isto e, inclusive, fazem concessões à direita sobre a chamada defesa da soberania, que é uma abominação total a partir do ponto de vista do marxismo e do leninismo, e, sobretudo, do trotskismo. Seria algo agradável pensar que nosso cordial crítico fosse capaz de compreender pelo menos algo disto. Desgraçadamente, nossa experiência não nos dá muita margem para o otimismo sobre esta suposição.

Em todo o seu material escrito eles colocam uma ênfase enorme na defesa da soberania nacional contra a União Européia. Agora, pelo que sabemos a França não é um país colonial lutando por sua independência nacional. Pelo contrário, a França é uma nação imperialista que explora as suas antigas colônias do norte da África, África e Caribe. As palavras de ordem da democracia burguesa na França perderam todo o seu significado progressista há muito tempo, aproximadamente 210 anos para sermos exatos.

A palavra de ordem de soberania nacional tinha um conteúdo progressista, na realidade revolucionário, no período em que a França revolucionária estava lutando por sua sobrevivência contra a Grã Bretanha, Áustria e Prússia. Mas, em 1870, já se tinha convertido em uma palavra de ordem reacionária e, em 1914, foi denunciada por Lênin como uma traição à classe trabalhadora internacional. Tentar recuperá-la agora, na época da decadência imperialista, inclusive indiretamente, é uma traição total aos princípios mais elementares de Lênin e Trotsky, e um abandono total do internacionalismo proletário.

Os lambertistas na França na verdade lançam todos os males do capitalismo sobre o acordo de Maastricht [para ler mais sobre isto, ver a seção dedicada à França, mais adiante]. Isso é totalmente incorreto. Qualquer idéia de que a burguesia francesa de alguma forma é melhor que a burguesia "européia", ou que a situação da classe trabalhadora francesa estaria melhor abandonando a UE e fosse independente (qualquer que seja o seu significado hoje) é totalmente falsa. Adotar esta posição seria equivalente ao abandono de um ponto de vista de classe.

Disto se poderia chegar à conclusão que a burguesia francesa ou a britânica, ou qualquer burguesia nacional da Europa, não atacaria as conquistas da classe trabalhadora em seus próprios países, se não estivéssemos na União Européia! Mas estes ataques estão ditados pelas necessidades do capitalismo atual, com ou sem Maastricht. A questão é romper com o argumento vão sobre se deveríamos estar ou não na UE e colocar uma alternativa independente da classe trabalhadora. Isto nós o fazemos claramente em todo nosso material.

Que podem responder nossos amigos lambertistas a isto? Talvez nos acusem de não sermos suficientemente "concretos" em nossa oposição à UE capitalista. "Está muito bem defender o socialismo, mas primeiro devemos fazer "A", "B" ou "C". Por exemplo, primeiro devemos nos retirar da UE e depois poderemos falar de socialismo". Bem, estamos acostumados com estes argumentos dos reformistas de esquerda e dos estalinistas, cujas soluções "práticas" invariavelmente implicam em rendição à burguesia. A teoria menchevique-estalinista das etapas apresenta-se constantemente com diferentes disfarces, sempre como uma alternativa "concreta" e "prática" ao socialismo.

Talvez nosso crítico amigo responda que não é suficiente simplesmente defender o socialismo, que é necessário lutar por todo tipo de demandas transitórias, incluídas as demandas democráticas. Seríamos os últimos em estar em desacordo com isto. Na época da decadência imperialista é necessário lutar por cada reforma significativa e demanda democrática na medida em que estas mantenham sua validade. Isto incluiria a defesa das nações oprimidas para que possam decidir seus próprios assuntos sem a interferência do imperialismo. Quando os iraquianos ou os venezuelanos exigem este direito, devemos defendê-lo. Mas isto categoricamente não se aplica aos "direitos nacionais" das nações imperialistas como a França ou a Grã Bretanha.

A CMI adota uma posição de classe independente sobre a questão da União Européia. Não apoiamos a UE, mas tampouco apoiamos uma posição nacionalista, que é a que sempre têm os reformistas de esquerda e os estalinistas quando se opõem à associação na União Européia. Preferimos recorrer ao método de Marx e explicar que, dentro ou fora da União Européia, na medida em que o capitalismo exista, não haverá diferença fundamental no que concerne à classe trabalhadora. O que faz falta não é confundir a classe trabalhadora com a demagogia nacionalista, mas lutar pelo socialismo e colocar a reivindicação dos Estados Unidos Socialistas da Europa, como a única alternativa real à Europa dos monopólios.

 

França

  Nossos amigos lambertistas dedicam parte significativa de seu texto para atacar a política do jornal marxista e da web La Riposte. Mas uma vez mais não atacam as idéias reais e a política destes companheiros, e sim uma flagrante distorção delas. Para começar, colocam a questão da valorização do governo Jospin (1997-2002) no texto publicado por La Riposte sob o seguinte título, PCF: programa, estratégia e participação no governo:

"Se, ‘em todas as questões fundamentais, a política aplicada por Jospin se baseou na defesa dos interesses capitalistas', La Riposte aponta apesar de tudo que ‘as poucas medidas positivas de seu governo, como a CMU e a lei das 35 horas semanais, não impediram o declínio geral das condições de vida da maioria da população'".

A isto se segue uma nova nota de La Riposte:

"Na política aplicada pela ‘esquerda plural' desde 1997, tudo não foi negativo. Apesar de seus limites, os emplois jeunes [empregos juvenis] foram um passo a frente. Como foi a CMU. Apesar disso, tomada em seu conjunto, a política posta em prática pelo governo foi uma mistura de remendos e reformas sociais insuficientes, por um lado, e contra-reformas reacionárias tomadas diretamente do ‘plano' Alain Juppé, por outro".

Com isto, parece que deveria ficar claro. Mas nossos críticos então dizem: "Tomemos as principais medidas que La Riposte considera como ‘positivas'", e continuam explicando os aspectos defeituosos e inaceitáveis destas diferentes medidas, como o fato de que a introdução da jornada de trabalho de 35 horas fosse acompanhada frequentemente pela anualização das horas de trabalho e pelas ajudas aos empresários, ou que os emplois jeunes se limitaram a contratos de tempo limitado (até cinco anos) que, com freqüência, serviam para substituir os trabalhadores fixos. Mas claramente isto é exatamente ao que faz referência La Riposte quando diz que estas reformas eram "remendadas e insuficientes".

Realmente, é tão difícil de entender? Já que nossos críticos lambertista parecem não entender a relação entre marxismo e reformas, citemos Lênin sobre este aspecto. Em seu artigo Marxismo e reformismo, escrito em 12 de setembro de 1913, Lênin explica a diferença entre marxismo e reformismo:

"Diferentemente dos anarquistas, os marxistas admitem a luta pelas reformas, isto é, pelas medidas que melhoram as condições da classe trabalhadora e que não destroem o poder da classe dominante. Ao mesmo tempo, contudo, os marxistas combatem com a maior energia os reformistas, os quais restringem direta ou indiretamente os anseios e a atividade da classe trabalhadora às reformas. O reformismo é uma maneira que a burguesia tem de enganar os trabalhadores, que continuarão sendo escravos assalariados, apesar de algumas melhorias isoladas, enquanto subsistir o domínio do capital.

"Quando a burguesia liberal concede reformas com uma mão, sempre as retira com a outra, reduzem-na a nada ou as utiliza para subjugar os trabalhadores, para dividi-los em grupos, para eternizar a escravidão assalariada dos trabalhadores. Por isso, o reformismo, inclusive quando é totalmente sincero, se transforma de fato num instrumento da burguesia para corromper os trabalhadores e reduzi-los à impotência. A experiência de todos os países mostra que os trabalhadores saíram burlados sempre que confiaram nos reformistas.

"Pelo contrário, os trabalhadores que assimilaram a doutrina de Marx, ou seja, que compreenderam que a escravidão assalariada é inevitável enquanto perdurar o domínio do capital, não se deixarão enganar por nenhuma reforma burguesa. Compreendendo que, enquanto durar o capitalismo, as reformas não podem ser sólidas nem importantes, os trabalhadores lutarão para obter melhorias e as utilizarão para continuar lutando, mais intensamente, contra a escravidão assalariada. Os reformistas pretendem dividir e enganar os trabalhadores com algumas migalhas, com a intenção de separá-los da luta de classe. Os trabalhadores, que compreenderam a falsidade do reformismo, utilizam as reformas para desenvolver e ampliar sua luta de classe.

"Quanto mais forte é a influência dos reformistas entre os trabalhadores, mais fracos estes são; mais forte é sua dependência da burguesia e mais fácil é para esta anular as reformas através de vários subterfúgios. Quanto mais independente e profundo é o movimento dos trabalhadores, quanto mais amplo em suas finalidades, mais desembaraçado se vê da estreiteza do reformismo e com mais facilidade conseguem os trabalhadores assegurar e utilizar certas melhorias" (Lênin, Obras Completas. Vol. 13. pp. 372-75. Na edição inglesa).

Com que clareza explicava Lênin esta questão! Poder-se-ia aplicar esta citação precisamente à situação na França. A classe trabalhadora sempre lutará pelas reformas, pelos aumentos salariais e por outras reivindicações parciais, "pelas medidas que melhoram as condições da classe trabalhadora e que não destroem o poder da classe dominante", nas palavras de Lênin. Na realidade, sem a luta quotidiana para avançar sob o capitalismo, a revolução socialista seria impossível. Nossa diferença com os reformistas não é porque eles defendem as reformas, mas porque eles não lutam de maneira decidida pelas reformas, porque eles capitulam diante da burguesia, porque chegam a compromissos e terminam aplicando uma política de contra-reformas.

A questão é que nas condições atuais sob o capitalismo não é possível nenhuma reforma significativa ou duradoura. Por todos os lados, a burguesia está marcha atrás nas concessões que deu no passado sob a pressão da classe trabalhadora e de suas organizações. O estado do bem estar social está sendo minado e destruído. O único caminho para defender as conquistas do passado é através da luta total contra a burguesia e isso, inevitavelmente, colocaria a questão do poder. Isto é evidente para qualquer marxista. Mas isso significa que a luta pelas reformas não seja mais necessária? Essa conclusão seria um completo erro e serviria para isolar os marxistas da classe trabalhadora, que entende a necessidade de lutar pela defesa dos salários e das condições diante das depredações do Capital.

Os lambertistas estão indignados porque La Riposte apoiou a reivindicação das 35 horas semanais e outras reformas. Consideram que estas reformas nada tinham de positivo e que, na realidade, eram contra-reformas reacionárias. Se fosse este o caso, deveríamos explicar porque os partidos da direita, no início, tentaram abolir completamente a lei que introduzia a jornada de 35 horas semanais. Também deveríamos explicar porque o movimento dos trabalhadores na França lutou contra isto, obrigando à direita a dar marcha atrás neste tema, limitando-se a várias emendas reacionárias.

O mesmo se aplica à CMU, que oferece um nível mínimo de cobertura médica a setores da população que não dispunham disso antes da medida. A CMU não vai suficientemente longe, é claro! Os companheiros a caracterizam como "remendada e insuficiente", mas, apesar disto, é um passo adiante e há que se opor energicamente a qualquer tentativa da burguesia de eliminá-la, como corretamente se fez com a oposição à eliminação dos "empregos juvenis", apesar de suas deficiências, com o governo Raffarin.

Os marxistas sempre defenderam inclusive a menor reforma que tende a melhorar as condições dos trabalhadores e da juventude, enquanto que, ao mesmo tempo, explicam que a única forma de garantir uma melhoria duradoura dos níveis de vida é através da transformação socialista da sociedade. Quem não estiver preparado para defender o terreno conquistado pela classe trabalhadora no passado, nunca será capaz de dirigi-la à tomada do poder no futuro. Tudo isto é o ABC para um marxista, mas é um livro fechado sob sete chaves para os confusos sectários.

 

La Riposte e o PCF

  Nossos críticos ocupam-se depois da questão da atitude de La Riposte com relação à participação do Partido Comunista Francês (PCF) num futuro governo de esquerda, onde o Partido Socialista (PS) teria a maioria. Eles citam a resposta de La Riposte a esta questão: "Deveria o PCF aceitar participar no governo com o PS?".

"Não sob quaisquer condições. Para nós, deveria ser descartada a participação num governo de esquerda, que, como o governo de Jospin, privatiza massivamente e, em todas as questões fundamentais, adapta sua política aos interesses dos capitalistas. O PCF deveria dizer que está disposto a governar com a direção do PS com a condição de que eles se comprometam a realizar medidas decisivas para defender os interesses dos trabalhadores e romper o controle dos capitalistas na economia".

La Verité diz que isto significa que La Riposte está a favor da participação do PCF num futuro governo de esquerda. Mas quem puder ler verá que a citação anterior deixa perfeitamente claro que a posição de La Riposte é de uma participação condicional, que depende do conteúdo do programa de governo. Mais uma vez, o que temos aqui não é uma crítica da política de La Riposte, mas uma distorção deliberada e desonesta desta política.

O argumento que apresentam depois contra esta posição é o seguinte:

"... não diz que, como o governo Jospin, a primeira condição para [este compromisso] seria romper com Maastricht e com a União Européia, uma vontade expressada pela maioria da população que votou ‘não' em 29 de maior de 2005!".

Isto nos leva ao ponto que se converteu numa verdadeira idée fixe entre os lambertistas, isto é, a necessidade de que a França rompa com o Tratado de Maastricht e com a União Européia, dos quais, segundo eles pretendem, La Riposte é um fervoroso adepto, e inclusive que Grant e Woods vêem o Tratado de Maastricht como "um ponto de apoio para a luta de classes na Europa!". Sobre isto, assim como sobre muitas outras questões, não é difícil ver que La Verité (A Verdade) está na realidade cheia das mentiras mais escandalosas. O que é certo, não obstante, é que La Riposte não se opõe à União Européia pelas mesmas razões que La Verité, que contrapõe ao Maastricht capitalista e à reacionária União Européia, a defesa da igualdade capitalista e da reacionária "República francesa", que parecem considerar algo progressista.

Mas, antes de avançar sobre a questão européia, deixemos claras, em primeiro lugar, as questões da política do PCF e de sua participação num futuro governo de esquerda. Nossos críticos escrevem:

"La Riposte saúda de passagem a Marie-George Buffet, secretária-geral do PCF, que: ‘tem razão' - mais vale tarde do que nunca - quando diz que a esquerda perdeu porque ‘não enfrentou os defensores do capitalismo', passando de ‘concessão a concessão' e de ‘adaptação a adaptação' aos interesses capitalistas".

Sua irritação com esta citação de La Riposte é expressa, em seguida, nos seguintes termos:

"Mas o que caracteriza a política de Marie-George Buffet não é precisamente a busca de acordos com aqueles no Partido Socialista que se opõem abertamente à aplicação das diretivas européias?"

Como invalida esta nota o que foi colocado por La Riposte? Buffet tem razão ou está equivocada, ao dizer que a razão do fracasso do governo anterior de esquerda foi o seu fracasso para enfrentar o capitalismo e as concessões feitas aos capitalistas? Sim ou não? Claramente a resposta é sim. E quando La Riposte diz ‘mais vale tarde do que nunca', simplesmente significa que isto deveria ter sido dito e consequentemente posto em prática durante o governo de esquerda, não somente depois da derrota de 2002. Onde está o problema? Mais uma vez, nossos críticos brandem sua pequena e insignificante espada para não dar golpe algum.

Lênin sempre dizia que a verdade é concreta. Os trabalhadores franceses passaram pela experiência do governo de direita de Raffarin. Lutaram através de greves e manifestações de massa nas melhores tradições do movimento dos trabalhadores francês. Houve as explosões dos jovens espoliados. O establishment foi abalado pela derrota no referendo sobre a Constituição Européia. Tudo isto aponta em direção a uma mudança de ambiente decisiva na sociedade francesa. Isto foi comentado inclusive por Chirac que disse: "existe um profundo mal estar na sociedade francesa".

Está sendo preparado o cenário para uma grande virada à esquerda na França. As massas logo dispensarão ao d