|
Fundación Federico Engels .. |
|
| O 400o aniversário de Dom Quixote | ||
| A Espanha na época de Cervantes | ||
|
|
||
|
"A
burguesia, onde ascendeu ao poder, pôs um final a todas as relações
idílicas, feudais e patriarcais. Rasgou impiedosamente todos os
laços feudais variegados que prendiam o homem aos seus ‘superiores
naturais’ e não deixou nenhum outro laço entre homem e homem que
não o do interesse sem disfarces, o do insensível ‘puro pagamento’".
"A Espanha conheceu períodos de grande florescimento, de superioridade sobre o resto da Europa e de dominação sobre a América do Sul. O poderoso desenvolvimento do comércio doméstico e mundial superou cada vez mais o desmembramento feudal das províncias e os prticularismos regionais do país. O crescimento do poder e da importância da monarquia espanhola foi inexoravelmente elevado naqueles séculos com a função centralizadora do capital mercantil e com a gradual formação da nação espanhola". (Trotsky, A Revolução Espanhola, 1931). Este ano marca o 400o aniversário da primeira publicação de Dom Quixote, a mais esplêndida obra da literatura espanhola. A classe trabalhadora, a classe que tem o maior interesse na luta pela defesa da cultura, celebrará este aniversário entusiasticamente. Esta foi a primeira grande novela moderna, escrita numa linguagem que homens e mulheres normais podem entender. Foi um dos livros favoritos de Marx, que freqüentemente o lia em voz alta para seus filhos. A luta pelo socialismo é inseparável da luta pelas idéias e pela cultura. Em um gesto generoso, o Presidente Chávez ordenou a impressão de uma edição especial de dois milhões de cópias da obra-prima de Cervantes para ser distribuída gratuitamente. De nossa parte, celebramos o aniversário analisando o Quixote do ponto de vista do materialismo histórico.
A vida de Cervantes
Miguel de Cervantes (1547-1616) é o mais famoso representante da literatura espanhola. Novelista, autor dramático e poeta com uma considerável produção literária, é lembrado hoje quase que exclusivamente como o criador de Dom Quixote. Cervantes nasceu em Alcalá de Henares, uma cidade perto de Madri, no seio de uma família da pequena nobreza. Seu pai, Rodrigo de Cervantes, foi cirurgião e a maior parte de infância de Cervantes foi gasta movendo-se de cidade em cidade enquanto seu pai procurava trabalho. Seu pai foi famoso em Valladolid, Toledo, Segovia e Madri – por suas dívidas. Estas o levaram ao cárcere em mais de uma ocasião – um fato que era muito comum naquele tempo. À primeira vista, a vida de Cervantes foi somente uma longa série de fracassos: fracassou como soldado; fracassou como poeta e autor dramático. Finalmente, foi obrigado a procurar emprego como cobrador de impostos; mas até nisso o desastre o golpeou. Foi acusado de corrupção e terminou na prisão. Mas esta larga experiência de vida capacitou-o a ganhar um conhecimento de primeira mão da grande variedade de tipos humanos e uma aguçada percepção da sociedade de seu tempo. Cervantes interessou-se por escrever em 1568, quando escreveu alguns versos dedicados à memória de Isabel de Valois, a terceira esposa de Filipe II, indubitavelmente visando ganhar favores e dinheiro. Mas sua carreira literária foi interrompida pelo serviço militar. Após estudar em Madri (1568-69), sob a supervisão do humanista Juan López de Hoyos, em 1570 ele se juntou ao exército espanhol na Itália. Tomou parte na batalha naval de Lepanto (1571), a bordo do navio de guerra Marquesa. Ferido no braço por um arcabuz, sua mão esquerda ficou fora de uso pelo resto da vida. Mas isto não o impediu de continuar na milícia por longos quatro anos. Cansado da guerra, ele retornou à Espanha em 1575, recrutando-se com seu irmão Rodrigo na galera El Sol. Mas o navio foi capturado pelos turcos, e ele e seu irmão foram levados à Argel como escravos. Cervantes ficou cinco anos como escravo até que sua família pôde levantar o dinheiro suficiente para pagar seu resgate. Foi libertado em 1580. Após retornar a Madri, manteve vários postos administrativos temporários, e só voltou a escrever relativamente tarde na vida. Escreveu obras como Galatea e Las Tratas de Argel, que, descrevendo a vida dos escravos cristãos em Argel, conquistou para si algum êxito. Com exceção de suas comédias, seu mais ambicioso trabalho em verso foi Viaje del Parnaso (1614). Também escreveu muitas comédias, das quais somente duas sobreviveram, e pequenas novelas. Mas nenhum desses trabalhos permitiu-lhe prover sua vida. Tendo finalmente casado, Cervantes percebeu que uma carreira literária não renderia o suficiente para ele manter uma família. Então, mudou-se para Sevilha, onde obteve trabalho como fornecedor para a marinha. Suas aventuras não terminaram aqui. Teve êxito, mas ganhou muitos inimigos, em conseqüência sofreu longos períodos de prisão. Em um desses períodos de forçada inatividade, começou a trabalhar no livro que lhe daria fama eterna. A primeira edição de Dom Quixote apareceu em 1605. Conforme se relata, ele foi escrito na prisão de Argamasilla, em La Mancha. A segunda parte de Dom Quixote apareceu em 1615. O livro foi um sucesso e trouxe para seu autor fama internacional, mas permaneceu pobre. Entre os anos 1596 e 1600, morou primeiramente em Sevilha. Em 1606, Cervantes se estabeleceu permanentemente em Madri, onde ficou pelo resto da vida. Em 23 de Abril de 1616 – aniversário de Shakespeare – Cervantes morreu na pobreza em uma Rua de Madri que agora tem o seu nome, apenas um ano após o surgimento da segunda edição do Quixote. A obra-prima de Cervantes parece ter sido iniciada como uma cômica caricatura das narrativas da cavalaria andante que foram populares em seu tempo, mas se ampliou como uma caleidoscópica reflexão do período em que Cervantes viveu. É assim um olhar fiel e amadurecido da vida daquele período – um mosaico rico de um mundo em transição, uma fermentação de ideais e costumes em confronto e uma infinita variedade de caracteres. A maioria desses caracteres foi desenhada das classes mais baixas. Dom Quixote foi uma novidade na literatura: um quadro da vida real descrito em linguagem clara e corriqueira. O público leitor aplaudiu a introdução do dialeto comum como um trabalho literário. Diferentemente de muitos de seus contemporâneos, Cervantes não teve um patrono rico. Ele dependeu exclusivamente de seus leitores. Esta foi uma relação inteiramente nova entre o escritor e seu público. Cervantes somente poderia sobreviver pela venda de seus livros e ele somente poderia vender livros pressionando a nota que ressoava nos corações e mentes de seu público. Nisto ele foi brilhantemente bem sucedido. Poucos livros na história refletiram tão fielmente o novo espírito que se tinha desenvolvido na sociedade. Para se avaliar este fato, é necessário ter uma idéia aproximada do que a sociedade espanhola daquele tempo realmente gostava.
A Espanha de Cervantes (O Manifesto Comunista). A Espanha de Cervantes foi uma sociedade em transição. A união das coroas de Aragão e Castela, alcançada através do casamento de Fernando e Isabel, criou a base para a unificação da Espanha e a criação de uma monarquia absoluta. A queda de Granada, o último domínio mouro da Espanha, foi o ato final da Reconquista que demorou séculos. Isto foi rapidamente seguido pela descoberta da América e pelo predomínio da Espanha como o poder econômico e militar dominante da Europa. Pelo tempo em que Cervantes nasceu, Madri tinha somente 4 mil habitantes, comparável a Toledo, Segóvia ou Valladolid. O crescimento de Madri foi resultado dos fueros ou direitos concedidos à nascente burguesia espanhola pelo rei de Castela e Leon no período medieval. No século XIV, Fernando IV lá instalou a corte, por ser mais vantajoso para a caça, por seu clima e água pura. Além disso, deu à monarquia uma base independente, livre do controle da nobreza provincial. Sob Filipe I, o enorme aparelho burocrático de um estado absolutista foi completado e aperfeiçoado. Madri se transformou de uma pobre povoação provincial em uma cidade de 100 mil habitantes, cheia de igrejas, catedrais, palácios e embaixadas. Para construir a cidade, todas as florestas foram postas abaixo. A área, que tinha sido famosa por sua salubridade, ar e água pura, tornou-se uma pestilenta fossa. As ruas de Madri eram escuras, estreitas e cheias de pútrido lixo, com porcos fuçando mergulhados na sujeira. Casas decrépitas, palácios de mau gosto, ruas cheias de sujeira e de carcaças de animais mortos, distritos empobrecidos com sua atmosfera mourisca, as barracas dos pobres comprimidas em torno das casas dos ricos. Por toda parte, o fedor apodrecido do lixo, fermentando nas ruas, onde era atirado indiscriminadamente. A corte de Madri não era muito melhor; como se sabe, era conhecida como a mais suja da Europa. Era comparada por alguns embaixadores estrangeiros a um povoado no interior da África. Este foi o caldeirão fervente de mudança social em que as velhas classes foram fundidas rapidamente enquanto eram substituídas por novas classes. O declínio do feudalismo, ao mesmo tempo que a descoberta da América, teve um efeito devastador na agricultura espanhola. Em lugar de um campesinato produtivo ganhando seu pão com o suor de seu rosto, confrontamo-nos com um exército de mendigos e parasitas, aristocratas arruinados e ladrões, servidores do rei e beberrãos, todos se esforçando por ganhar seu sustento sem trabalhar. A putrefação abriu caminho até o topo. Em meio a toda esta pobreza e sujeira, barulho e sordidez, a corte espanhola era considerada como uma das mais brilhantes da Europa. Era um espetáculo sem fim de bailes, mascaradas e música. A realeza espanhola viveu literalmente – a crédito. Ela raramente pagou seus credores. Uma coisa vulgar como o dinheiro estava abaixo da consideração da aristocracia. Uma nobreza parasitária viveu em condições de tão notória extravagância que se tornou necessário aprovar leis contra o luxo excessivo no vestir, no mobiliário e até nos arreios dos cavalos. As autoridades até se sentiram obrigadas a ordenar a queima pública de chinelos decorados, ligas de meia de senhoras e tecidos bordados. Alguns duques viajavam de um lugar para o outro acompanhados por 100 lacaios vestidos de seda. Até oficiais do exército apareciam em público vestidos em ricas vestimentas justas e jaquetas decoradas com fitas, jóias e plumas. Apesar da aparente religiosidade, muitos nobres flertavam publicamente com jovens e atrativas monjas com quem se encontravam nas ruas. Dizem que o famoso retrato de Cristo de Velazquez foi encomendado como uma manifestação de penitência de Filipe IV por uma de suas inumeráveis aventuras sexuais. As senhoras da nobreza não eram melhores que seus homens. Quando a duquesa de Najera e a condessa de Medelin tinham uma querela, elas primeiro amontoavam uma cordilheira de insultos uma sobre a outra que fariam corar uma vendedora de peixe e, em seguida, lançavam mão prazeirosamente do mais penetrante argumento dos punhais. A corrupção era a regra; o funcionário honesto, a exceção. As funções na igreja e no estado eram preenchidas com um verdadeiro exército de parasitas e oportunistas, todos aspirando fazer fortuna com o dinheiro público. Muitos oficiais viviam uma existência precária e estavam prontos para vender sua avó por um punhado de reais. A venda de cargos era a norma. Ministros particularmente corruptos foram satirizados em versos obscenos, mas a rigor ninguém prestou muita atenção a um fenômeno que era tão comum e considerado como normal.
A Grande Armada
Filipe II herdou um império fabulosamente rico, mas que estava apoiado sobre frágeis fundações. Ele então contribuiu para miná-lo ainda mais através de aventuras e guerras externas. El Escorial foi um monumento ao seu perverso regime burocrático. Aqui, a força da estreita visão do burocratismo estava unida com a do fanatismo religioso: parte palácio, parte monastério, foi o centro administrativo de um vasto império. Por trás dos altos muros do El Escorial, Filipe II cedeu às suas fantasias imperiais, construindo constantemente, reparando e reconstruindo seus palácios reais, usando o mármore e outros materiais custosos. A nobreza apressou-se em imitar o exemplo de seu monarca, construindo seus próprios palácios. A explosão de construções cedo dizimou a rica região florestal que cobria a serra em torno de Madri por tempos imemoriais. Esses grandiosos planos por fim chegaram à falência. Esta é a principal ironia – no auge de seu poder e riqueza, a Espanha estava caindo estrepitosamente na decadência e no empobrecimento. Um século mais tarde, o arrogante fidalgo com remendos em seu manto, com a bolsa vazia e uma árvore genealógica tão ramificada quanto a lista de suas dívidas, era já literalmente um fato corriqueiro. Ainda que a Espanha fosse o poder dominante na Europa, seu desenvolvimento social foi ultrapassado pela Inglaterra, onde as relações capitalistas na agricultura estavam já bastante avançadas após os abalos da Peste Negra e da Revolta dos Camponeses no final do século XIV, como explica Marx: "Na Inglaterra, a servidão tinha praticamente desaparecido na última parte do século XIV. Então, e ainda mais no século XV, a imensa maioria da população consistia de camponeses proprietários, qualquer que fosse o título feudal com que se revestissem seus direitos de propriedade sobre a terra que lavravam. Nos grandes domínios senhoriais, o bailiff, ainda um servo, foi substituído pelo arrendatário livre". (O Capital, vol. 1, capítulo 27). No início do século XVI, o capitalismo já se desenvolvia na Espanha e na Inglaterra. No entanto, paradoxalmente, a descoberta da América e sua pilhagem por atacado pela Espanha serviram para sufocar o capitalismo espanhol no nascedouro. O dilúvio de ouro e prata extraídos por escravos das minas do novo mundo minou o desenvolvimento da agricultura, comércio, manufatura e indústria espanhola. Serviram como combustível para o fogo da inflação e criaram a miséria em lugar da prosperidade. "As novas descobertas converteram o comércio por terra com as Índias em comércio marítimo; e as nações da península, que tinham até então permanecido distantes da grande rota de comércio, agora se tornaram nos intermediários e transportadores da Europa". (Prescott, History of the Reign of Ferdinand and Isabella, p. 740). O crescente poder do capitalismo inglês necessariamente se confrontou com o poder do império espanhol. A coroa inglesa, inicialmente através da pirataria e, em seguida, mais abertamente, desafiou a supremacia espanhola nos mares. Gradualmente, ingleses e holandeses começaram a estabelecer cabeças de ponte no Caribe, colocando as bases para um novo império colonial. O conflito entre Espanha e Inglaterra chegou ao ponto máximo quando os ingleses enviaram ajuda militar aos rebeldes holandeses protestantes que tinham se levantado contra o domínio espanhol. Isto inevitavelmente conduziu à guerra. O poder da Espanha recebeu um duro golpe e o seu amor próprio um choque brutal quando no verão de 1588 a Grande Armada foi derrotada por uma combinação do fogo dos navios ingleses e de fortes tempestades marítimas. Da noite para o dia a Espanha descobriu-se humilhada pelo nascente poder da Inglaterra. Esta derrota teve um caráter simbólico – o velho mundo do catolicismo feudal foi rapidamente deslocado pelo nascente poder do protestanismo capitalista no norte da Europa. Os últimos anos de Filipe II foram anos de grave declínio físico, amargura e ansiedade. A sangrenta guerra em Flandres estendia-se sem final à vista. Ele morreu em 1598, oito anos depois da derrota da Grande Armada e com ele morreu a era quando a Espanha era a diretora dos destinos do mundo. Seu filho, Filipe III, era um inútil palhaço, mais interessado nos prazeres da caça (ou um ou outro javali ou uma bela atriz) do que nas questões do estado. Logo depois da morte de seu pai, dele se aproximou um de seus secretários com a seguinte questão: "Que faremos com a correspondência, Majestade?" Ele respondeu: "Entregue-a ao Duque de Lerna". Assim, o monarca absoluto se transformou em um monarca ausente. Todo o poder estava nas mãos de seu favorito, o Duque de Lerna. A decadência interna da Espanha mais adiante acelerada pela incompetência e degeneração de sua casa real. Mas a causa real da decadência encontrava-se em outro lugar. O governo real da Espanha foi uma combinação tragicômica de decadência senil, nepotismo e corrupção. A Espanha, que tinha sido o primeiro estado-nação a ser unificado na Europa, com sua liderança econômica e poder militar, foi derrotada por aquelas nações – começando com a Inglaterra e a Holanda – que mais decisivamente entraram na estrada do capitalismo e onde a burguesia aspirava ao poder político. As imensas riquezas que tinham sido violentamente arrancadas de um continente inteiro foram rapidamente dissipadas pela corte e seus exércitos de servidores de vadios aristocratas. Além dos muros da corte existia um turbulento mar de miséria, pobreza e desespero, que periodicamente irrompia em violentos tumultos e distúrbios.
O Século de Ouro
Neste período a Espanha encontrava-se em febril atividade. O que acontecia dentro e fora do país incendiava a imaginação de todos os homens enérgicos. Este foi o cenário social do siglo de oro (século de ouro) da Espanha. Em nenhum outro momento a literatura espanhola alcançou alturas tão deslumbrantes como neste tempo. Neste período, os reis e nobres da Espanha tomaram sob seu patrocínio um grande número de poetas, novelistas e pintores da mais alta qualidade. O mundo raramente viu tal galáxia de talento literário, com nomes como Miguel de Cervantes, Felix Lope de Vega, Francisco de Quevedo, Pedro Calderon de la Barca e Tirso de Molina. A mais notável figura da época foi Lope de Veja. Ainda que descendesse de uma família aristocrática de Santander, Lope, como Cervantes, encontrava-se quase sempre em dificuldades econômicas. Ele foi um homem de seu tempo e oscilava em triunfos e tragédias. Participou da desastrosa aventura da Grande Armada. Participou de um duelo mortal e, em conseqüência disto, foi banido de Madri. Casado duas vezes, tornou-se padre após a morte de sua segunda esposa. Tendo juntado considerável fortuna, morreu em 1635. Estes fatos mostram que sua vida, como a de Cervantes, foi cheia de aventuras, casos amorosos e viagens. Tão densa foi sua vida que nos perguntamos quando é que ele tinha tempo para escrever alguma coisa. Mesmo assim ele escreveu e muito – 2 mil comédias que nunca foram igualadas na literatura espanhola. Destas, somente cerca de 430 sobreviveram. Entre elas estão clássicos como Fuenteovejuna, El major alcalde, El Rey e Fuenteovejuna (baseada num fato real), bem como Perribañez o El Comendador de Ocaña. Também escreveu poemas, epopéias e romances em prosa, bem como trabalhos religiosos. Em alguns desses trabalhos vemos elementos de importância social e política. Fuenteovejuna foi baseado num fato real envolvendo uma insurreição popular e Perribañez o El Comendador de Ocaña expõe a tirania das relações feudais na Espanha rural. Aqui, o povo comum é mostrado em estado de rebelião contra os senhores feudais, mas o monarca é descrito como o aliado e defensor do povo. Em outras palavras, temos aqui a expressão literária do conceito de absolutismo. A monarquia absolutista na Espanha, como todas as outras, aumentou o seu poder às expensas da nobreza através do equilíbrio entre as classes. O contemporâneo de Lope, Pedro Calderon de la Barca, foi um dramaturgo, filósofo e teólogo que escreveu, entre outras coisas, La Vida es Sueno (A Vida é um Sonho) e El Alcalde de Zalamea (O Prefeito de Zalamea). Ele foi igualmente popular e prolífico como Lope. Nasceu em 1600 no seio de uma próspera família, seu pai foi secretário do Tesouro, tendo sido educado em prestigiosas universidades de Salamanca e Alcala de Henares. Mais tarde participou nas campanhas de Flandres e na supressão da revolta dos catalães de 1640. Há informes de que ele teve pelo menos um amor ilícito e um filho ilegítimo. Mas em 1651ele expressou o desejo de entrar num monastério e foi disso impedido pela intervenção pessoal de Filipe IV. As comédias de Calderon têm um forte componente moralisador. Elas foram escritas em estilo barroco. No El Alcalde de Zalamea e no El Medico y su Honra o tema principal é a honra. Este é o ideal feudal de uma sociedade cortesã que nunca existiu e que, com mais certeza ainda, não existiu naquele tempo. Não de se estranhar que Filipe IV, aquele príncipe das prostitutas, fosse um admirador fervente! Seu mais famoso trabalho A Vida é um Sonho é o mais apropriado título para a época em que foi escrito. A classe dominante espanhola viveu em um sonho do qual teve um rude despertar. O nome de Francisco de Quevedo é menos conhecido fora da Espanha, mas ele foi outro grande escritor do Século de Ouro. Seu nome está associado com a sátira. Ele deixou uma vívida pintura da Espanha daquele tempo em sua obra-prima, El Buscon, no estilo da literatura picaresca. Seus trabalhos são caracterizados por seu humor sutil e espírito crítico e é claramente enraizado nos eventos do trágico período da história espanhola em que ele viveu e escreveu. Quevedo viu que o declínio da Espanha estava ligado à degeneração e corrupção da corte. O grupo de parasitas que ocupou o Alcazar de Madri era bem conhecido por ele através de sua experiência como jovem membro da corte. Com 31 anos de idade decidiu mudar-se para a Itália para ocupar um posto como secretário do Duque de Osuna, mas quando este caiu em desgraça Quevedo foi preso e exilado. Foi reabilitado pelo Duque de Olivares, o futuro assistente de Filipe IV com quem manteve uma curiosa relação de amor e ódio por toda sua vida. Seu livro El Buscon é provavelmente a mais admirável novela picaresca do século XVII. Em seu trabalho Suenos (Sonhos), ele descreve a vida da corte e da aristocracia. Foi um mal passo que o levou mais tarde à prisão por seu criticismo ao círculo dominante e ao Duque de Olivares. Quando este caiu em desgraça, Quevedo foi liberado da prisão, mas morreu no esquecimento dois anos depois em 1645. A lista é longa, mas nós mencionaremos mais um autor do período: Tirso de Molina. Este foi o pseudônimo do frade Gabriel Tellez – o padre que nos legou a história imortal de um dos mais imorais (ou, mais exatamente, amoral) personagem da literatura mundial, Don Juan, o protagonista central de El Burlador de Sevilla. Interessantemente, o padre estava bem informado com a psicologia das mulheres. Em suas Comedias de Enredo (por exemplo, Don Gil de las calzas verdes e El amor medico) o protagonista é sempre uma mulher.
A novela picaresca
Este foi o período que deu nascimento ao mais espanhol de todos os gêneros literários – a novela picaresca. O pícaro é um trapaceiro, um vagabundo e um aventureiro sobrevivendo de suas habilidades, desde que não tenha nada mais para sobreviver. Ele é o produto de um definido período sócio-histórico: o período de transição produzido pela decadência do feudalismo. Aqui, temos os despojos e o lastro supérfluo de um mundo em profundo processo de dissolução. A decadência da velha ordem conduziu a uma caótica situação em que a velha moralidade é quebrada sem nada para substituí-la: daí, o divertido niilismo moral do pícaro. A sociedade espanhola desse tempo apresenta-nos um rico mosaico de patifes, ladrões e trapaceiros que é provavelmente inigualável na história mundial. A filosofia dessa camada pode ser resumida em uma palavra – sobrevivência. A vida é uma louca disputa para assegurar os meios de existência por qualquer método possível. Seu lema é: "Cada um por si e que o diabo pegue o que ficar por último". Na segunda metade do século XV, Madri foi então estabelecida como a "mais nobre e leal cidade" capital da Espanha. A população começou a crescer com o fluxo de estranhos atraídos à corte como abelhas pelo mel. A novela picaresca refletiu essa situação do período em que o feudalismo espanhol estava em declínio. A fraude do comerciante, a brutalidade dos soldados, o fanatismo dos padres e a corrupção dos cortesãos – estes eram, simplesmente, os fatos da vida. Este complexo caleidoscópio foi, de fato, a expressão de uma sociedade em processo de desintegração cuja síntese não é possível. Ao lado de uma aristocracia com seus sonoros títulos e bolsas vazias, existia uma massa de elementos desclassificados, mercenários e aventureiros. As ruas da capital estavam cheias de criminosos, desertores do exército e bravateiros de todos os tipos e tamanhos, carregando suas espadas e adagas. Escolheriam lutar ou bater uma carteira com a mesma desfaçatez. Bandos de ladrões estavam ativos e, às noites, não era uma boa idéia ir pelas ruas nas horas mais escuras. Um cronista contemporâneo lamentava: "Não existe nenhum rebelde, aleijado, maneta, perneta ou homem emboscado em toda França, Alemanha, Itália ou Flandres que não tenha um descendente em Castila". Esta é a verdade abjeta de que trata o Lazarillo de Tormes, o Buscon e, por último, mas não por isso menos importante, o Dom Quixote. Como estilo literário, a novela picaresca nasceu do esgotamento do romance da cavalaria andante, da mesma forma que seus personagens nasceram com a decadência do feudalismo – é apenas uma outra forma de se expressar a mesma idéia. A decadência do feudalismo inevitavelmente produziu uma reação contra os valores, moralidade e ideais do feudalismo. Esta reação expressou-se na forma do sarcasmo e do ridículo; uma visão de mundo antiquada, que sobrevive a si mesma, é ridícula por definição, tornando-se, então, motivo de comédia. Essas páginas abundam com todo tipo de vida e de pessoas com fortes e coloridas características. O tipo do anti-herói da novela picaresca, como no Lazarillo de Tormes, é uma caricatura dos heróis dos romances da cavalaria andante. No lugar de um nobre cavaleiro em brilhante armadura, vê-se perversamente um jovem mendigo – uma figura familiar na Espanha daquele tempo. Temos, aqui, a autêntica origem de um tipo reconhecido de literatura que reaparece mais tarde em Gil Blas por Le Sage, o Jonathan Wilde de Fielding e Barry Lyndon de Thackaray. As páginas de Quixote estão cheias de personagens e situações tomadas do grande livro da vida. O espírito desse livro, com seu duro realismo e animado otimismo, é claramente produto do humanismo renascentista e não da Contrareforma. Aqui, nossos olhos convergem não para o céu, mas para a terra e todas suas riquezas. Seu lema é: "Nada que é humano me é estranho". Existe um forte elemento nacional no Quixote. Este é essencialmente um livro espanhol. Se não fosse isso, não teria sido escrito. Aqui, temos todo o agudo contraste de sol e sombra tão característico da paisagem espanhola que também se reflete na vida espanhola e nas características de seu povo. Mas esta explicação, por mais verdadeira que seja, não exaure a questão. Não se pode explicar completamente a riqueza das caracterizações de Cervantes em termos puramente nacionais. Para se entender Cervantes corretamente, é necessário se colocar em seu contexto social, econômico e histórico. Foi Marx quem apontou que os grandes períodos de transição histórica são particularmente ricos em "caracteres". Isto é verdadeiro tanto para Shakespeare quanto para Cervantes. A Inglaterra de Shakespeare, como a Espanha de Cervantes, encontrava-se nos espasmos de uma grande revolução social e econômica. Esta foi uma muito turbulenta e penosa mudança que empurrou grande número de pessoas para a pobreza e criou nas cidades uma grande classe de elementos lumpenproletários: mendigos, ladrões, prostitutas, desertores e assemelhados, que conviviam com aristocratas empobrecidos e padres sem batina, formando um viveiro inesgotável de personagens como Sir John Falstaff e o Lazarillo de Tormes. As cenas desbocadas das tavernas do submundo, em Dom Quixote, dão à novela vida e cor, ao mesmo que iluminam a contradição central daquele período histórico. O povo comum da Espanha é apresentado como vivo e animado enquanto a nobreza como morta e absurda. O tema central de Quixote contém uma verdade histórica fundamental sobre a Espanha no período de decadência feudal. Os ideais da cavalaria andante aparecem como uma ridícula e antiquada excentricidade na nascente economia capitalista, em que as relações sociais, éticas e morais são ditadas pelo nexo indigente do dinheiro.
Um período de transição (Paul Lafargue, Reminiscências de Marx). Toda classe dominante preserva as mesmas ilusões sobre si mesma. Na sua imaginação, eles são heróis conquistadores, quando na realidade estão envolvidos no mais sórdido e imundo negócio. Marx, que muito admirava o Quixote, escreveu: "É claro que a Idade Média não poderia se alimentar de catolicismo, nem a Antigüidade de política. Pelo contrário, é a maneira pela qual asseguraram o sustento que explica porque, aqui a política e ali o catolicismo, desempenharam o papel principal. Por fim, é necessário apenas um breve conhecimento da história da república Romana, por exemplo, para se saber que sua história secreta é a história da propriedade da terra. Por outro lado, Dom Quixote foi punido por imaginar que o cavaleiro andante era compatível com todas as formas econômicas da sociedade". Enquanto que, em Lope de Vega, a velha idéia feudal de honra é tratada com excessiva seriedade, no Quixote se transformou em objeto de humor. Cervantes está olhando para frente, enquanto Lope está olhando para trás. Cervantes representa a transição em direção à sociedade capitalista e à moralidade baseada no dinheiro e não no status, enquanto Lope recordou saudosamente a moral de um mundo em desaparecimento, onde todo homem conhecia seu lugar e a sociedade era mantida ao mesmo tempo pelo cimento da honra e das obrigações mútuas. Os trabalhos de Lope já davam o jogo como perdido: era a admissão tácita de que esses valores tinham colapsado com a velha sociedade que os tinha produzido. A essência do humor de Dom Quixote reside precisamente nas contradições geradas pela transição do feudalismo ao capitalismo, de uma sociedade baseada nos conceitos de prestação feudal de serviços, de honra e lealdade, totalmente diferente de uma sociedade baseada exclusivamente em relações monetárias. A cavalaria andante de Dom Quixote conflita com a existência social e a realidade econômica, da mesma maneira que o sonho conflita com a vida diária. É a expressão literária da falência da aristocracia espanhola, que ocultava sua pobreza numa aura de nobreza. É a ironia de uma classe social que não entende que está condenada e que as velhas maneiras não fazem mais parte do jogo. Esta contradição choca-nos como absurda e cômica. O pobre e supostamente ignorante povo conhece a verdadeira situação das coisas e com razão atribui à demência o comportamento dos nobres. É de fato uma espécie de demência, mas não é uma demência individual e sim o de uma inteira classe social que tem sobrevivido aproveitando os destroços, sem se reconciliar com o fato e alheio a ele. Na realidade, a Espanha naquele tempo estava cheia de homens de grandes nomes e impressionantes títulos que não tinham dois centavos para esfregar um no outro. Havia até grandes proprietários de terra que eram um pouco mais que mendigos. No capítulo um, já temos uma descrição de Quixote como um membro da nobreza que é uma mera sombra de si mesmo, reduzido à semipobreza e passando despercebido dos mundanos assuntos da produção agrícola: "É pois de saber que este fidalgo, nos intervalos que tinha de ócio (que eram os mais do ano), se dava a ler livros de cavalaria, com tanta afeição e gosto, que se esqueceu quase de todo do exercício da caça, e até da administração de seus bens". Dom Quixote não ligava para dinheiro. Ele exclama indignadamente: "Há algum precedente de um cavaleiro andante em algum tempo ter pagado impostos, subsídios, taxas individuais, passagens e travessias? Que alfaiate em algum tempo teve dinheiro para suas roupas? Ou que guardiãol em algum tempo fez reconhecimento para morar em sua casa?" Ele em geral está fora da economia monetária – pelo menos na sua mente. Se fosse deixada à economia quixotesca, a sociedade em breve faliria, posto que, no devido tempo ninguém receberia alguma vez crédito e até o arrogante proprietário de um cartão de crédito mais cedo ou mais tarde encararia a desagradável necessidade de pagar suas contas. No episódio da estalagem, no capítulo três, Dom Quixote recebe uma lição de moderna economia do dono da estalagem que indaga se ele tem algum dinheiro com ele, ao que Dom Quixote replica que "não tinha prata porque nunca tinha lido nas histórias dos cavaleiros andantes que nenhum a tivesse trazido". "Você se equivoca", disse o estalajadeiro, "posto que nas histórias se não achasse tal menção, por terem entendido os autores delas não ser necessário especificar uma coisa tão clara e indispensável, como eram o dinheiro e camisas lavadas, nem por isso se havia de acreditar que não trouxessem tal; e assim tivesse por certo e averiguado que todos os cavaleiros andantes, de que tantos livros andam cheios e rasos, levavam bem petrechadas as bolsas para o que desse e viesse, e que igualmente levavam camisas, e uma caixinha pequena cheia de ungüentos para curar suas feridas". A lição foi bem aprendida. No início de sua segunda saída de aventuras, Dom Quixote se assegura que esteja bem suprido com a moeda do reino, assumindo um grande débito como resultado. Somos informados no capítulo sete que: "Deu logo ordens Dom Quixote a buscar dinheiros; e, vendendo umas coisas, empenhando outras, e malbaratando-as todas, juntou uma quantia razoável". Esta história é típica de toda a aristocracia espanhola e da própria Espanha.
Sancho Panza
Em Dom Quixote há dois protagonistas. Ao lado do alto e magro cavaleiro montado em um velho e escangalhado cavalo, há um pequeno e gordo camponês escarranchado numa mula. Eis uma das grandes duplas da literatura mundial, tão inseparáveis como o sal e a pimenta. Que podemos dizer do outro personagem da novela? Sancho Panza é um pobre trabalhador agrícola, um vizinho de Dom Quixote, "um homem de bem (se tal título se pode dar a um pobre), mas de pouco sal na moleira". A pouca inteligência de Sancho foi aparentemente o que o levou a seguir seu semi-louco senhor. Já nas primeiras etapas, é o ignorante trabalhador agrícola quem entende a real situação e tenta demonstrá-la ao seu amo, que naturalmente recusa-se a acreditar nele. Também aqui existem implicações filosóficas. A filosofia prevalecente na Espanha de Cervantes não tinha avançado além da escolástica da Idade Média, uma versão vulgar de Aristóteles misturada com o idealismo de Platão. O único avanço real da filosofia na Idade Média tinha sido realizado pelos filósofos islâmicos e os cientistas de Al-Andaluz, mas desde que a Espanha cristã tinha emergido de uma longa guerra de conquista no sul contra os mouros, essas idéias eram anatematizadas. A Igreja estrangulou a filosofia, como todos os outros aspectos da vida intelectual, exceto a literatura. Os filósofos escolásticos cristãos gastavam uma grande quantidade de tempo debatendo questões como o sexo dos anjos e quantos anjos dançariam na cabeça de um alfinete. Cervantes parodia as disputas universitárias na hilariante controvérsia do capacete de Mambrino. Apesar disso, Dom Quixote é filosoficamente idealista. No capítulo dez, ele apresenta um de seus costumeiros discursos sobre os princípios da cavalaria andante, em que mostra além de qualquer dúvida que os cavaleiros viajantes (e por implicação seus escudeiros) não precisavam comer: "Como pensas mal", respondeu Dom Quixote, "Faço-te saber, Sancho, que é timbre dos cavaleiros andantes não comerem um mês a fio, ou comerem só do que se acha mais à mão; o que saberias, se tiveras lido tantas histórias como eu; li muitíssimas, e em nenhuma achei terem cavaleiros andantes comido nem migalha, salvo por casualidade, ou em alguns suntuosos banquetes que lhes davam; e os mais dias os passavam com o cheiro das flores. E posto se deva entender que não podiam passar sem comer, e satisfazer a outras necessidades corporais, porque realmente eram gente como nós somos, deve-se entender também que, andando o mais de sua vida pelas florestas e despovoados, e sem cozinheiro, a sua comida mais usual seriam alimentos rústicos, tais como esses que aí me trazes. Portanto, amigo Sancho, não te mortifiques com o que a mim me dá gosto, nem queiras fazer mundo novo, nem tirar a cavalaria andante de seus eixos". Porém, Sancho Panza é um convicto filósofo materialista e não deu atenção a nenhuma palavra disto: "Viva muitos anos", disse Sancho, "mas sou por dizer a Vossa Mercê que, tendo eu bem de comer, tão bem e melhor o comeria em pé e sozinho, como sentado à ilharga de um imperador; e até se hei de dizer toda a verdade, muito melhor me sabe comer no meu caminho, sem cerimônias, nem respeitos, ainda que não seja senão pão e cebola, que os perus de outras mesas com a obrigação de mastigar devagar, beber pouco, limpar-se a miúdo, não espirrar nem tossir quando me for preciso, nem fazer outras coisas, que a solidão e liberdade trazem consigo. E portanto, senhor meu, essas honras que Vossa Mercê me quer dar, por eu ser ministro e aderente da cavalaria andante, como escudeiro que sou de Vossa Mercê, troque-as noutras coisas que me sejam mais cômodas e de melhor proveito, que estas agradeço-lhas, mas dispenso-as desde já até o fim do mundo". Sancho Panza, afinal, não é tão ignorante apesar de tudo. Suas palavras contêm o bom senso material das massas. Ele tem seus pés firmemente fincados na terra. Ele vive no mundo real, do qual Dom Quixote há muito se apartou. Ele come, bebe, espirra, dorme e realiza todas as outras funções do corpo que o seu amo idealista encara com desprezo. De fato, Sancho estava preocupado principalmente com seu ventre (Panza atualmente significa "ventre" em espanhol). Em uma ocasião ele pergunta ao seu amo sobre o salário dos escudeiros dos cavaleiros andantes. Em outro lugar, Dom Quixote diz que a palavra de um camponês é regulada não pela honra e sim pelo proveito.
A Igreja
Nos séculos XV e XVI, o catolicismo espanhol esteve na vanguarda da reação européia. Esta foi a era da Reforma e da Contrareforma. A Santa Igreja Romana manteve-se no centro da ordem estabelecida e combateu ferozmente para defender seu poder e privilégios contra o espírito dos novos tempos. Em suas sangrentas batalhas pelas almas dos homens, as armas usadas não eram meros discursos, mas a espada e o fogo, levando muito a sério as palavras da Bíblia: "Eu não vim para trazer a paz, mas a espada". A Igreja Católica Romana foi toda poderosa na Espanha – uma realidade enfatizada pelo fato de o Cardeal Cisneros ter sido feito regente após a morte de Fernando. Após somente dois anos de governo, ele nomeou Carlos, o neto dos monarcas católicos Fernando e Isabel, como rei. Carlos iniciou uma política de centralização, tendo feito Madri capital. Ele ordenou a construção de El Escorial na Serra e ocasionalmente tomava parte na fiscalização dos trabalhos. Esta foi uma sociedade governada pelos padres. Levou ao estabelecimento da Inquisição e da Sociedade de Jesus (os Jesuítas), fundada pelo basco fanático Santo Inácio de Loyola como a tropa de choque militante da Contrareforma. Filipe II encontrava-se tão dominado e obcecado pela religião que se sentia inapto para tomar a menor decisão política sem antes consultar os padres. Madri e outras cidades espanholas estavam cheias de instituições religiosas, igrejas, monastérios e conventos para ordens sacras como as Descalças, ou freiras descalças que se mortificavam da forma sugerida por seu nome. Na então construída Plaza Mayor existia toda sorte de jogos e espetáculos para o entretenimento e edificação do público – inclusive o mais espetacular de todos os eventos: o auto de fé. A religião impregnava todos os poros da sociedade espanhola sem produzir efeitos notáveis na moral pública. Os estratos mais baixos, enquanto aparentemente devotos, estavam obcecados com fetichismos superticiosos que nada faziam para infundir um sentido de moderação em sua conduta. Milhares recolhiam-se na Plaza de la Cebada para ouvir o discurso enlouquecido de algum semilouco eremita. A obsessão com a idolatria os induzia a arranhar a argamassa dos muros das igrejas para obter uma relíquia. No entanto, o humor prevalecente de fanatismo religioso não prevenia a epidemia geral de roubos, estupros, assassinatos, hostilidades e duelos que estavam na ordem do dia. Do reino do fanático religioso de visão limitada Filipe II ao do dissoluto Filipe IV, a imoralidade alcançou seu ponto mais baixo. A igreja em si mesma refletia a moral geral dos tempos. Havia casos de frades envolvidos em roubo, estupros e assassinatos. Duelos aconteciam às dúzias todos os dias. Às noites, as ruas eram virtualmente intransitáveis, a iluminação da cidade estava limitada a algumas lâmpadas que vacilavam diante das imagens de virgens e santos no exterior dos muros das casas. A Igreja, que supostamente deveria ser a guardiã da moral pública, era de fato um viveiro de intrigas políticas. Sua fanática insistência em patrocinar por todos os meios a suposta doutrina da pureza da igreja foi, na realidade, um meio de fortalecer o controle da igreja sobre todos os aspectos da vida e do comportamento humano. A ditadura espiritual, respaldada pela Inquisição – a Gestapo da Idade Média – foi justamente outra manifestação do estado burocrático que administrou a Espanha e a conduziu à ruína. Intolerância e fanatismo estavam na ordem do dia. Depois da conquista de Granada, os mussulmanos foram forçados a se converter ou a deixar a Espanha. Muitos se converteram para poderem ficar em sua terra natal. Mas eram sujeitos a todas as formas de atormentadoras restrições e controles sob o olho de águia da Inquisição. Eles adotavam as medidas para compelir toda família moura a guardar um pernil de porco pendurado na cozinha e até ativaram uma "polícia do pernil" que inspecionava o antes mencionado item em intervalos regulares para assegurar que estava sendo consumido. Apesar disso, no Quixote, Cervantes se atreveu a falar simpaticamente sobre os Moriscos. Quando Quixote pronuncia as famosas palavras a Sancho: "Com la Iglesia hemos tropezado, Sancho" ("Com a Igreja estamos aqui face a face, Sancho"), ele criou uma expressão que se tornou quase um provérbio na Espanha. Enquanto Dom Quixote estava inteiramente preparado para carregar contra os moinhos de vento, ele teria de pensar duas vezes quanto a obstruir a Igreja. Naturalmente, na época em que a Inquisição queimava homens e mulheres pelas mais triviais ofensas, Cervantes andava com cuidado e tomou cuidado para se proteger com protestos de fé. Mas está muito claro que suas atitudes pelo menos para a religião estabelecida era crítica, se não abertamente hostil. Se alguém ler o Quixote cuidadosamente, torna-se imediatamente evidente que a atitude crítica à Igreja percorre todo o texto como uma linha vermelha. No capítulo cinco, a sobrinha de Quixote diz: "Mas quem tem a culpa toda sou eu, que não avisei com tempo a Vossas Mercês dos disparates do senhor meu tio, para acudirem com remédio antes das coisas chegarem ao que chegaram, e queimarem todos esses excomungados alfarrábios, que tem muitos que bem merecem ser abrasados como se fossem os herejes". Isto foi prontamente realizado no próximo capítulo, quando um por um todos os livros de Dom Quixote foram destinados às chamas: "Naquela noite incendiou e destruiu a ama quantos livros havia no pátio e em toda a casa; e alguns arderiam que merecessem ser guardados em perpétuos arquivos. Mas não o quis assim a mofina e a pressa do seletor; cumpriu-se o rifão que diz que às vezes paga o justo pelo pecador". Esta é claramente uma paródia dos autos da fé da Inquisição que enchiam as praças centrais das cidades espanholas com o cheiro forte de carne queimada. Nessa cerimônias brutais em que freqüentemente era o inocente que sofria, enquanto o culpado presidia o entretenimento. Em outras ocasiões, também, Dom Quixote fala com seco desprezo sobre a Igreja. Numa época em que a Santa Inquisição detinha poder absoluto sobre a vida e a morte, esta foi uma muito corajosa, até impulsiva, atitude honrosa. No capítulo XIII, alguém diz que os frades cartuxos têm uma vida rigorosa como os cavaleiros andantes. "Tão rigorosa talvez que o seja", replicou nosso Dom Quixote, "porém tão necessária, duvido muito".
Um espírito rebelde
Lendo nas entrelinhas é possível se detectar elementos de crítica social em quase todas as páginas do Quixote. O espírito da rebelião está presente até no próprio início. No prefácio do autor, nós podemos ler: "Não és seu parente nem seu amigo, e tens a tua alma no teu corpo, e a tua liberdade de julgar muito à larga e a teu gosto, e estás em tua casa, onde és senhor dela como el-rei de suas alcavalas, e sabes o que comumente se diz ‘que debaixo do meu manto ao rei mato’. Isto tudo de isenta de todo o respeito e obrigação e podes do mesmo modo dizer desta história tudo quanto te lembrar sem teres medo de que te caluniem pelo mal, nem te premiem pelo bem que disseres dela". Dom Quixote é também um comunista instintivo. Em uma fala para alguns incrédulos pastores de cabras, ele fala sobre uma distante era dourada quando todas as coisas eram possuídas em comum: "Ditosa idade e afortunados séculos aqueles a que os antigos puseram o nome de dourados, não porque nesses tempos o ouro, que nessa idade do ferro tanto se estima, se alcançasse sem fadiga alguma, mas sim porque então se ignoravam as palavras ‘teu’ e ‘meu’! Tudo era comum naquela santa idade; a ninguém era necessário, para alcançar o seu ordinário sustento, mais trabalho que levantar a mão e apanhá-lo das robustas azinheiras, que liberalmente estavam oferecendo o seu doce e sazonado fruto". Ele compara essa era dourada, quando todas as coisas eram aproveitadas em comum, com a presente era, quando o dinheiro e a avareza determinam todos os aspectos da vida e solta a imaginação: "E agora, nestes nossos detestáveis séculos, nenhuma está segura, ainda que a encerre e esconda outro labirinto de Creta, porque lá mesmo, pelas fendas ou pelo ar, com o zelo do maldito cuidado lhes entra o amoroso contágio, e as faz dar com todo o seu recato à costa. Para segurança delas, com o andar dos tempos, e crescendo mais a malícia, se instituiu a ordem dos cavaleiros andantes, defensora das donzelas, amparadora das viúvas, e socorredora dos órfãos e necessitados. Desta ordem sou eu, irmãos cabreiros, a quem agradeço o bom agasalho e trato que me dais a mim e ao meu escudeiro, pois, ainda que por lei natural todos os viventes estão obrigados a favorecer aos cavaleiros andantes, contudo sei que vós outros, ignorando esta obrigação, me acolhestes e obsequiastes; e razão é que eu vos agradeça quanto posso a vossa boa vontade". Foi uma jogada de mestre de Cervantes colocar o que seria uma ousada crítica social na boca de um louco. Todos os revolucionários na história foram considerados como loucos por seus contemporâneos. Para a maioria do povo é racional aceitar o status quo, e quem não aceitar a ordem existente é irracional – louco – por definição. Hegel escreveu: "Tudo o que é real é racional; e tudo o que é racional é real". E este enunciado tem sido considerado como uma justificação absoluta do status quo. Mas Engels explica que, para Hegel, nem tudo que existe é também real. Para Hegel, o atributo de realidade pertence somente ao que ao mesmo tempo é necessário: "No curso de seu desenvolvimento o que real prova ser necessário". O que é necessário demonstrou a sua capacidade, em última instância, para ser também racional. É óbvio para um marxista que tudo o que existe atende alguma necessidade. Mas as coisas estão constantemente em mudança, desenvolvem-se, modificam-se e engendram contradições internas que eventualmente produzem sua destruição. Perdem, então, a qualidade de necessidade e entram internamente em contradição com isto. Os fundamentos começam a tremer sob o peso da ordem estabelecida. Aquelas pessoas que consideram a si mesmas como supremos realistas agora se transformam na pior espécie de utopistas reacionários, enquanto que aqueles que eram vistos como sonhadores e loucos tornam-se as únicas pessoas sãs em um mundo que enlouqueceu. Em um período histórico em que um obsoleto sistema sócio-econômico está em declínio, a ideologia, a moralidade, os valores e a religião, que foram anteriormente o cimento que unia a sociedade, perdem seu poder de coesão. Velhas idéias e valores tornam-se objeto de ridículo. As pessoas que aderiam a eles tornam-se objeto de gracejos, como Dom Quixote. A historicamente relativa natureza da moralidade torna-se evidente. O que era mau torna-se bom, o que era bom torna-se mau.
O longo e ignominioso declínio da Espanha (Trotsky, A Revolução Espanhola, 1931).
Sob todo o esplendor dos feitos da Espanha, as fundações deste imponente edifício já estavam desmoronando. Todo o tecido da sociedade estava roto. A despeito do perigoso estado das finanças espanholas, foi decidido retomar a guerra com a Holanda. Como meio para recrutar um exército de mercenários na Espanha e na Alemanha o tesouro pôs em circulação moeda falsa na figura do vellon, um passo que conduziu inevitavelmente à explosão da inflação. O colapso final aconteceu vagarosa e ignominiosamente. Não foi somente o dinheiro que foi desvalorizado. A monarquia estava totalmente corrompida e a corte, um esgoto de imoralidade e vícios. No reino de Filipe IV, a imoralidade da corte espanhola alcançou extremos escandalosos. O próprio monarca, quando não estava caçando em El Pardo, El Escorial e Aranjuez, passava o tempo em numerosos casos amorosos, cercado por um verdadeiro exército de senhoras, amantes e filhos ilegítimos. Foi pai de numerosos filhos ilegítimos, dos quais o mais famoso foi Dom Juan Jose de Áustria, de quem reconheceu a paternidade de uma ligação com a atriz cômica conhecida como La Caldonera. A rainha, por seu lado, não fazia nenhum segredo de seu amante, o conde de Villamedina. Como poder dominante da Contrareforma, a Espanha estava olhando para trás, tentando obstruir o fluxo da história. Perseverava numa política quixotesca. E, como Dom Quixote, não pôde parar o relógio, mas somente condenar-se ao declínio, derrota e decadência em todos os níveis. A Espanha era já um gigante com pés de barro e suas aventuras militares nos Países Baixos foram o último prego em seu caixão funerário. Em muito curto espaço de tempo, a Holanda tornou-se livre do fatal abraço da Espanha, que cedo se viu vítima de agressões militares externas, humilhada e esmagada por nações que anteriormente tinham sido perante ela inferiores. A Inquisição agora se tornou onipotente, presidindo um reino de terror, baseado nos métodos usuais de tortura e fogueiras humanas. Em 1680, a Plaza Mayor foi cenário de um espetacular auto da fé. O fedor de carne carbonizada envenenava a alma e distorcia a mente da Espanha. O obscurantismo penetrou nos mais altos níveis do estado. Este humor prevalecente refletiu na arte do período, uma arte que, com poucas exceções dignas de nota, estava impregnada com o espírito de estreito e descuidado fanatismo. O declínio da Espanha é uma gráfica ilustração de como uma sociedade que é incapaz de desenvolver as forças produtivas pode cair vítima de seus próprios êxitos. "A vaidade antecede a queda", como nos diz o provérbio. A arrogância da Espanha imperial tem uma moderna reprodução na arrogância dos EUA hoje. Da mesma forma como a Espanha foi a mais poderosa e rica nação no século XVI, os EUA o são hoje. E da mesma forma como a Espanha lançou-se em aventuras militares externas que minaram suas forças e esvaziaram seus cofres, assim os EUA estão se lançando em escala mundial. O paralelo é óbvio e estende-se à esfera da ideologia e da religião. George W. Bush é um religioso invejoso de visão limitada, justamente como Filipe II, e determinado a estabelecer uma absoluta dominação mundial. Isto não é acidental. Estamos vivendo num período de grande mudança histórica – um período de transição, semelhante a aquele do século XVI. Mas, enquanto que naquele tempo o mundo estava testemunhando o colapso do feudalismo e um irresistível movimento até o capitalismo, agora estamos vendo as convulsões de morte do capitalismo e um igualmente irresistível movimento para uma nova sociedade que chamamos socialismo. Aqueles que têm a coragem de dizer isso são chamados utópicos, sonhadores e loucos. Nós dividimos esta honra com Dom Quixote. Nós nos encontramos desconfortáveis dentro de casa no mundo capitalista como nosso ilustre antepassado. Mas diferentemente dele nós não procuramos atrasar o relógio para retornar a uma idade dourada que nunca existiu. Pelo contrário, desejamos fervorosamente avançar para uma nova e qualitativamente mais alta etapa do desenvolvimento humano. Não precisamos de sonhos e ilusões; preferimos manter nossos pés firmemente na terra. A esse respeito, pelo menos, estamos mais na tradição daquele generoso e prático proletário Sancho Panza. Mas compartilhamos com o cavaleiro de La Mancha o feroz ódio à injustiça em todas as suas formas. Participamos de sua capacidade para se elevar acima da estreita mesquinharia do burguês filisteu, para desejar um mundo melhor em comparação com o que vivemos e a coragem de lutar para mudá-lo.
15 de Julho de 2005 |
||